Literatura, verdade e morte: a escrita que mastiga a vida e pede ao suicídio que palite os dentes
Triste maldição a da loucura em um mundo que não aceita o silêncio, o não-sentido, a escuridão. Sob a força do iluminismo, tudo deve ser iluminado, tudo deve ser dito, tudo deve aparecer. Até mesmo o sonho que, antes de Freud, ou não dizia nada, ou dizia seu próprio silêncio, agora é posto na mesa de dissecação da hermenêutica. Freud tentou transformar o não-sentido em sentido, e assim levou luz aonde havia sombras. Encruzilhada em que os surrealistas se vêem acampados: Freud nos ensinou que somos sombra, mas também quis iluminar este nosso lado sombrio.
Quanto às potências da linguagem, a literatura moderna dividiu-se em duas linhas que são irmãs gêmeas: a primeira, vontade de verdade, com os surrealistas, os realistas, Poe, os realistas maravilhosos, Ginsberg e Kerrouac; do outro, imersão nas sombras, com Kafka, Burroughs, Sade, Roussel e Mallarmé. Relação entre a morte e a vida, em que a loucura, ao lado do vazio da linguagem, aparece como o já-estar-aí da morte.
A obra de Thompson pode ser interpretada como o espaço em que estas duas linhas se cruzam. Levado por seu ímpeto jornalístico de tudo iluminar, Thompson descobre aos poucos que o caminho do conhecimento é, na verdade, o próprio caminho das trevas. Quanto mais conhecer o real, mais se estranha com ele; quanto mais vai de encontro ao real, mais se vê à beira da fantasia. Um tanto quanto kafkiano. Daí o chavão "Medo e Asco/Repulsa/Ojeriza", que a tradução brasileira transformou perigosamente em "Medo e Delírio". Na verdade, a experiência de Thompson não é a do delírio, mas a do nojo, a do jogar-se ao abismo e perceber que tudo em sua volta lhe é estranho. Trata-se de uma radicalização da tese nietzschiana de que "não é natural à natureza ser conhecida". O mundo que Thompson quer conhecer não é o mundo que aparece com um simples gesto do olhar; é preciso toda uma técnica, toda uma força, toda uma violência para que o mundo possa transformar-se em linguagem; e é essa violência que caracteriza o gonzo, muito mais que uma subjetivização da realidade. De fato, raríssimos são os momentos em que a subjetividade fala mais alto que a violência do mundo. O próprio Thompson, quando descreve o que é o Gonzo Jornalismo, não falará uma palavra sequer sobre subjetividade; seu ponto importante é o da espontaneidade da escrita, da não-representação da realidade mediada pela subjetividade. Trata-se de um total anti-subjetivismo, uma completa e violenta imersão na realidade. É dessa violência que o asco nasce; é desse mundo completamente nu e cru, livre da roupagem do pensamento, que a realidade aparece nas reportagens de Thompson. Nas vezes em que o criador do Gonzo Jornalismo se refere a um jornalismo subjetivo, está muito mais dizendo "é um jornalismo de pura interpretação" do que "é um jornalismo guiado por aquilo que penso". Tanto o é que o mundo de Thompson é estranho a ele mesmo; e o que é o estranhamento, senão essa sensação de que o mundo não lhe pertence, de que a realidade não se adequa àquilo que você é, àquilo que é o seu próprio pensamento?
Assim, é a violência entre aquele que vê e aquilo que é visto o que caracteriza o Gonzo Jornalismo. Daí a necessidade de que a história seja contada a partir de sensações, e não de descrições. Ao modo de Alberto Caeiro, o mundo de Thompson é todo sensação: o mundo que passa pelo corpo, mas não chega ao cérebro; mundo sem espelhamento e sem reflexos; mundo da carne, dos nervos, do sangue e do descontrole. É este mundo que Steadman capta brilhantemente em seus desenhos viscerais. Que toda reportagem de Thompson seja escrita em primeira pessoa não é motivo para classificá-las como subjetivas; porque, ainda que o autor seja a fonte de tudo o que diz, suas palavras voltam-se para ele mesmo como um ser estranho. Ele é muito mais objeto de seu discurso que propriamente sujeito dele.
É esse fazer literário das sensações que, ao contrário do caminho do voyeur, do mero espectador, conduz Thompson à necessidade de transformar-se em seu próprio personagem (oposição impressionismo-expressionismo). Na esteira de Kerouac e de Ginsberg, o Gonzo Jornalismo é uma face radicalizada da vontade de expressão, do trasformar o mundo em linguagem, de tudo dizer, de tudo iluminar, própria de um dos caminhos da experiência literária moderna. Mas enquanto as obras de Kerouac e Ginsberg, mais próximos ao projeto revolucionário surrealista, afundam-se no mundo das sombras com o intuito de iluminá-lo, celebrando então os vagabundos e a linguagem convulsiva, a exeriência de Thompson é a de uma busca frustrada das luzes; ou, melhor ainda, uma constatação de que nossas luzes apenas tornam o mundo mais oculto, mais estranho, mais sem-sentido. Um estranho paradoxo: filho do iluminismo, Thompson é engolido pela escuridão; críticos do iluminismo, os surrealistas alimentam-se de sombras iluminadas.
Ser personagem de sua própria obra, transformar-se em seu próprio objeto de investigação, fazer da sua vida uma narrativa literária: movimentos que caracterizam a literatura, tal como a loucura, como uma maldição sobre aquele que escreve. A loucura, marcada pelo eterno vagar nas sombras, o eterno silêncio das palavras, a total evasão do sentido, o vazio de quem se afunda na solidão da linguagem, constitui aquilo que Foucault viu em Artaud e Roussel e chamou de ausência de obra. Mas, ao mesmo tempo, o desejo de verdade renascido com o realismo conduz a literatura moderna a uma angustia de transformar a própria vida em linguagem, a tudo dizer e tudo comunicar, a transformar tudo o que é real em objeto do fazer literário, constituindo assim uma experiência de presença da obra. Dois lados de uma mesma moeda (a epistemé moderna), a ausência e a presença da obra conduzem o homem que escreve ao mundo das sombras, mas por caminhos diferentes: a primeira, pelo o que o silêncio diz, a outra, pelo o que efetivamente se diz; uma, pelo desmoronamento da linguagem em direção ao seu vazio, a outra, pelo construir incessante do mundo através da linguagem; a ausência, pelo sujeito que se perde na escrita, a presença, pelo sujeito que é estranho a si mesmo e tenta incessantemente se encontrar; a primeira, pela imersão em uma experiência limite, experiência interior, endógena à linguagem, e a outra, pela imersão no que é exterior, no mundo que é o próprio estranhamento, exógeno à linguagem; a ausência, pelo desejo impossível da expressão; a presença, pelo que exige a possibilidade de exprimir-se.
Tanto a ausência quanto a presença da obra são maldições que possuem uma estreita relação com a morte. Mas aquele que é assombrado pela literatura e o mundo de sombras a que ela conduz pode ainda tomar dois caminhos: ou entregar-se à sua própria destruição, como Kerouac e Roussel, ou então celebrar o estranhamento do mundo e aceitar as sombras, tal como Breton e Gisnberg. No caso de Thompson, a presença da obra sobre a vida faz com que o suicídio seja também uma espécie de excorcismo; é como se a literatura, encarnada em sua existência, pudesse enfim desaparecer com o ato da morte. Como poderia ele, velho e acabado, doente e deprimido, ser ainda o mesmo Raoul Douke que sua obra exigia que ele fosse? Não se trata de dizer que a literatura definiu o seu suicídio, ou que Thompson se matou porque não conseguia mais escrever. Não há causalidade entre a literatura e o suicídio. No entanto, é evidente como o declínio de sua vida é simultaneamente o declínio de sua escrita. Tanto o é que seus últimos livros publicados foram suas memórias, escritos que se voltam ao passado, ao contrário de Fear and Loathing in Las Vegas e Hell's Angels e sua ambição de retratar o presente. Até mesmo sua carta de suicídio é lacônica, pontuada, curta e com frases de poucas palavras. Seu último escrito já demandava seu silêncio; sua alma cansada de tudo transformar em palavra agora se via diante do reconfortante silêncio que é a morte. Amaldiçoado pela escrita que exige para si a vida de quem escreve, como um vampiro de palavras a sugar-lhe o sangue da jugular, Thompson matou-se e calou-se com apenas uma bala direto no cérebro enquanto falava com a esposa ao telefone; e se não se matou silenciosamente, na paz que só a ausência da linguagem pode proporcionar, talvez seja mesmo porque a morte serviu para calar este ser estranho que o acompanhava: a escrita, a obra, a literatura.
