8.7.09

o leite do cio, o cio da pedra

Sete dedos brotaram
da terra, e de sua
pose inspiradora
apontaram para os
sete homens
que não
tiveram a chance
de falar; esses
salvarão
a Terra, de seu silêncio
,de sua
luz, de sua
morte haverá
vida e de nossos sonhos não
mais que
nossas
prisões.

O mundo
não é brincadeira;
o mundo é fogo
é terra
é a transpiração
do vapor sobre
nosso sangue; é atmosfera
é termostato é
dor é cio é
desejo é vida é
morte é morte em vida
é círculo é pedra
é traço é palavra
é rocha é chaga
é chaga de rocha é
pedra é ferro é metal
borbulhando é pétala
de fogo é lágrima
sobre a fogueira
é o verão ardendo
é o inverno é o gelo
em chamas é a terra ardendo
é magma é luta
é morte é gruta escura
de onde a palavra
brota (é vida, é dor,
é peça de xadrez sob
as mãos de Deus, é o homem
com as peças na mão
é você sobre suas próprias
peças, rei de si senhor
da tua vida, degladiando-se na
arena dos teus pensamentos
é tristeza que brota é) amor,
é o ódio que te alimenta
e é a respiração
felina inundada
de sangue.

Uma lágrima
sobre o fogo,
o fogo sobre a terra
a terra sob o ar
o ar sob a montanha
a pressão dos dias
como quem aperta a ferida
e dela não deixa
esvair-se glóbulos
(ólhos, ólhos, ólhos)

A vida é o punho pesado de Odair José gritando da sacada de meu apartamento
"Mas que loucura,
a gente
tem que viver!".

5.7.09

Profecia

O tempo está pesado.

Eu não estou pronto para o que está por vir.

Dos céus descerá um
Deus-muco que
nos grudará
à sua graça e da luz
espacial das estrelas
escondidas sob
as têtas das vacas, os testículos
do sapo, o saco, a boca
dos outros; do chão
se erguerão senhores
de terno e gravata
e eles comandarão a vida
de todos os pequenos
homens que não
sabem correr
sem rodas e máquinas que os engolem
e os atropelam e os matam
e os libertam dos
próprios pés - máquinas
que nos libertam
de nossos próprios - nossos próprios -
pés, pés, pés... por
onde andaremos nós,
nesse dia,
em que os violinos tocarem canções
distorcidas e dos campos
em chamas sairão insetos
,como os insetos do nosso nariz,
como os insetos no nosso intestino,
como a força, como o sangue
que escorre de nossos
sanduíches, como as crianças
que escorrem de nossos dentes,
sobre os dentes, como os dentes,
como as palavras que nos
dizem e nos
dizem e Alá! Haverá,
Alá mohamed'ali quimaricaturerapia,
os médicos serão padres
e os shamans serão guerreiros de onde
a dor brotará para salvar-nos
- e nossas mitologias não
serão mais as mesmas e nossos
dias não serão mais aguádos
e nossa chuva não será mais ácida
e nossos filhos não
serão mais pequenos e indefesos e nossa
mãe nos abandonará a correr pelos
lagos - e morreremos
afogados, e morreremos
afogados e poucos
serão escolhidos...

ele vem de helicóptero, e com
nove braços e uma
cabeça de inseto-rei
ele nos levará para
uma caverna
de onde nunca mais sairemos
e de onde nunca mais quereremos sair
e nunca mais pensaremos
em outra coisa a não ser
na própria felicidade, porque
não teremos mais dor, e esse será
o fim da vida, o fim do mundo,
o fim dos tempos - o sonho
psiquiátrico, o sonho dos homens
sem cor, os sonho nazista, o sonho
socialista o sonho cristão o sonho
dos homens dos homens sem sonhos
os violinos e os gatos
os sons estranhos
o miado da noite iluminado
por aqueles que se esqueceram
de viver e amar a vida
como quem ama aquilo que
perde e aceita a morte
como os insetos
aceitam suas pequenas
asas

(uma brotoeja nascerá do Escolhido
e as moscas o transformarão
em Deus-medusa e Deusa-varejeira:
e quem não o
seguir será castigado
com a plena felicidade de nunca
sentir o cheiro
de sua carne
apodrecer)

3.7.09

?De quantas sombras
não é
feito um homem
e seus olhos
e corações
de vórtex sobre
as palpitações?

?De quantas sombras somos
envolvidos
ao olhar para a janela
e nela ver
flores na sacada
vizinha, no apartamento
onde eu costumava espiar
a sombra daquela
garota
de olhos estranhos?

?Quanta escuridão
há em nós
quando penetramos a mulher
que amamos
e a mulher
que não amamos
e as unhas
penetram na carne
e a fazem
amarelar e enegrecer
e caírem no chão como
a lágrima que
escorre pela
língua de um
cachorro sufocado pelas
coleiras
de sua dona?

Ouça, e ouça
bem, porque só vou
falar isso uma vez, e eu não
me repito para mais
ninguém, entendeu, eu
coloco minha arma dentro
de meu coração e atiro
para fora e posso estourar
seus miolos com uma
só palavra e te mando
calar a boca mesmo
que você seja um juiz e eu
tenha que lhe pagar uma multa,
eu estou te avisando
seu filho da puta convencido
que se acha o dono do mundo
que eu tenho uma coleção
de boas armas em casa e posso
me expressar o quanto quiser
e você não é que pensa que
é seu pedaço de estrume com uma curva
no canto dos olhos negros e amarelos
como o fígado pobre
de teus filhos que você
alimenta com o sangue que espreme do
coração dos infames e do sorriso
sofrido de uma
velha aposentada! Eu te mato
com uma só palavra
e você verá só!

por quantas
trevas mais - e as palavras
se empremem no canto
da boca e me sorriem com um
desespero! meus dentes caíram, e tudo
vai começar novamente! ESPERO
ainda que você veja e eu estou
dizendo, eu lhe mato, eu lhe mato
não coma minha filha numa
mesa de jantar com velas
e sacrifícios porque eu
sei que você não
quer me proteger, você só
quer que eu foda a minha vida, eu mesmo,
e diga que sou culpado
de nascer e viver e sorrir
e foder a sua mãe! ah, como
é bom vê-la gozar dentro
da minha orelha (o gemido,
a dor que é tão boa, a dor que
é tão boa, a dor que
não se pode negar!)
queria ver
você sobre todas
as trevas do corpo dos
homens pra ver se
aguentava o que eu
aguento todo dia,
je suis allé
baque trois, enfants
los chicos e
las crianças te vão
dentro, dentro
amanhã, por demanhã
de manhã, como um
dia sem nuvens, sem sol, quando
o sol se apagar, eu e meu
rifle te mostraremos
que as trevas estão aqui,
no meu coração,
sufocada, sufocada,
por vocês
que sequer sabem
que são
as trevas
que te movem, e
te fazem escrever como
um maluco e colar em cartulina
os teus mais insanos
problemas que são inumanos


ninguém está
pronto para o que está por
vir, é um vírus,
é o que dizem: esteja preparado
para qualquer coisa, as pessoas
querem te atirar pela merda da janela
e eu vou te dizer, pronto
como nunca posso estar,
it's a litle saying
não aceite nenhuma
merda e sempre
esteja sobre o seu chão.

há um vírus que
se espalha sobre nossa
vida, e a diarréia
da vida, pelo ralo,
a vida pelo ralo, você
a deixou escapar, sorrindo
superficialmente, o sorriso
hipócrita, e toda vez que você acha que está seguro,
está tudo em sua mente,
está tudo em sua mente, e só na sua mente, os
ratos na cela,
você sabe quem são? tudo na sua
cabeça, tudo na sua
mente, e você
tenta!? E VOCÊ TENTA
LIBERÁ-LO!?!?!?

23.6.09

Não me reprovem na banca de mestrado

Eu vejo os homens e seus
desejos de liberdade
como quem olha
os leões
enjaulados e se
pergunta pra quê
que há tanta
juba?

Vejo os poetas
e seus
dias perturbados
em que as
estranhas pessoas
morrem e passam
pela rua carregadas por
fúnebres passantes
(nas costas da vida,
o mundo por sobre
um caixão
aos domingos! Adeus,
vovô, não se despeça
antes de
se despedir da
empregada
que bulinaste!)
e não há
muito do que lembrar,
dos poetas.

As noites escorregam,
o sopro do cigarro
faz desenhos, como
as nuvens fazem
desenhos, como
os pássaros desenham
nas nuvens
sua passagem que não
alcança o longe-longe
do céu. Está
escuro. Onde estou
eu, em pleno sol
do meio dia, preso
sob o teto que chamo
de lar e com o conforto estranho
dos homens livres
(como os porquinhos
fujindo do lobo
mau, que come
a chapéuzinho e no fim
todo conto de fadas
é uma grande
prova de que o imaginário é
nosso mais pesado grilhão).

Por sorte os homens
precisam comer rosquinhas,
dirigir carros, fazer
sexo, ouvir música - fazer músiva - ler
poemas, contar histórias
deixar-se contar na
boca dos outros,
fofocar, ouvir sussuros, botar
o ouvido na parede para ouvir
o gozo dos morcegos
sob as telhas
entre a laje e as estrelas
de que fogem (eles voam, mas
se escondem em cavernas,
como os homens); se não fosse
por esse monte
de inutilidades, acho que viveríamos
de dor alguma e estaríamos
condenados a fazer
literatura só com palavras,
sem matéria prima - sem
matéria prima (sem matéria
prima).

Eu vejo os poetas
como quem vê libertinos fodendo
com a própria vida; eu vejo
meus olhos como quem se
olha no espelho (só no
espelho, meus olhos)
e sei que o poeta
é um ser desprezível, um
ser desprezível, que não
sabe o que
faz da vida
(e que se soubesse, que sentido
haveria!?).

Libertar-se é a
arte de construir
prisões.

(sob os passos de quem ouve,
sob os passos de quem ouve,
sob os passos, toc toc,
aloha, mama mama, nada
manda a falta
de plllllllllllll111111
psiu, psiu, alô,
roça, parede, moinho de vento
cavalo, dom quixote
eu não te vejo
sem BRU BRU,
quem sussurra!?)

9.6.09

Sobre chatos (os insetos das partes baixas)

Sobre ser diferente, eu sempre quis ser diferente. Na verdade, não sei o que incomoda tanto as pessoas que não gostam das pessoas diferentes. Eu sempre fui meio estranho, e sempre achei isso normal. Hoje em dia as coisas andam todas ao avesso. Meus pés flutuaram de onde um dia eles achavam estar fincados. As coisas comuns aparecem todo o dia, estranhas e compactas. Meu sonho era comprar bolinhos azuis com churros no meio do doce de leite. Coisa estranha, a sintaxe dos alimentos fritos. Doces, docinhos, bem mais doces que as beringelas. Queria saber quem foi o filho da puta que inventou as beringelas. São como esponjas, esponjas negras e densas que chupam todo o óleo do mundo, ainda mais quando você as faz a parmegiana. Parmegiana. Era pra ser com parmesão, não? Mas o que eles fazem no Brasil, o que? Me digam, o que? Fazem um muzzareliana, e se acham os fodões. Meu, você nunca vai comer um verdadeiro filé a parmegiana no Brasil. O queijo que você compra é lixo. É tipo um pedaço da ponta da unha do fedor do ítalo-brasileiro que está ganhando rios de dinheiro com o tráfico de adolescentes sexualmente ativas. O quejo que vocês comem é a frieira do olho de peixe do pé de um capanga mal pago da máfia. Nunca vocês comerão o Godfather dos queijos. Há todo um processo oculto que vocês nunca vão saber qual é, mas pelo qual vocês pagam rios e rios de dinheiro. E depois de muito trabalho pra transformar um punhado de leite fino e ralo num denso pedaço de queijo parmesão original, você rala aquela porra e coloca na macarronada Galo com molho pronto Maggi. ONDE ESSE MUNDO VAI PARAR!? Eu tenho um amigo vegetariano que come soja texturizada para não comer carne, e pra piorar a situação ele frita a dita cuja numa panela cheia de óleo de soja. Me diga, por que não comer um boi besta que não faz nada além de mascar pasto pra depois se entupir de um produto industrializado da porra que passou por infinitos processos de dissecação e lavagem para chegar ao teu prato coberto do óleo que deveria estar no legume in natura!?!?!?!?!?! Vocês pagam pra retirar o óleo da soja, depois pagam pra retirar a proteína da soja, depois vocês colocam tudo na mesma panela e comem felizes da vida pensando "que bom, um boizinho não morreu!". Cara, você é ridículo! Você deveria comer rúcula. É, rúcula. Rúcula é bom. Faz bem pros dentes. E espinafre, faz bem pro sangue. Tem ferro. Pelo menos, você não pega o espinafre e o faz passar por um milhão de processos industriais para retirar-lhe e desfigurar-lhe os sentidos antes de mordê-lo. E tem gente que chora por conta de boizinhos... tem gente que chora. Como!?!? Como!?!?!?!? Por que botar a culpa das dores do mundo no meu almoço?, ein?, por que no meu pobre bife a parmegiana com mussarela!?!? Eu só quero estar em paz, só quero ficar em casa vendo tevê sem que você me diga o que devo ou não fazer. Não fui eu que desmatei a amazônia, não fui eu que fiz os negros se tornarem escravos, não fui eu que mateis judeus no holocausto, não fui eu quem elegeu o Bush, não fui eu que matei as baleias, não fui eu que inventei a roda, não fui eu que criei o telejornal, não fui eu quem pariu cinco gatinhos na rua... então não me faça perder o pouco de prazer que tenho ao morder um cadáver bovino aos domingos com a minha família de canibais jurássicos!

Entendeu!?

Eu quero curtir minha alienação, com batata frita e refrigerante. Prefiro ser um porco escroto chupando sangue com canudinho a ser um piolho de testítculos hipócrita.

29.5.09

Santa mãe de Deus! Os Deuses voltaram, com armas nucleares nas costas, e com as barbas longas, e uma K-47 e granadas espaciais! Desceram na terra com canhões anti-míssel e disseram que se o John Lennon voltar a cantar, eles queimam as crianças em óleo fervente, como bolinhos de arroz. Tomara que o tempo passe o suficiente antes deles conseguirem o que querem! O que eu sinto na espinha, puta merda, aquela dor de quem senta torto frente ao computador! Quem irá dizer que tudo isso não passa de besteira!? A paranóia é uma coisa estranha... tenho medo da gota de chuva ser uma gota ácida. Preciso de mais remédios... aquela última caixa me deixou embriagado. Senhor, Deus, Senhor Santíssimo, coloco meus joelhos no chão por cinco segundos e rezo desesperadamente para que você não deixe os Deuses do espaço nos desintegrarem. Os aeroportos estão fechados para bandidos como aqueles crápulas verdes e pequenos! Vão acabar com o mundo! Eu sei, eles são piores que os fiscais de carrinho de cachorro quente... há toda uma máfia por trás da maionese caseira com cheiro verde que você come aos domingos com a sua namorada. Eu sei que as coisas andam estranhas, mas não esperava que fosse chegar a esse ponto! Virgem santíssima, quase tive um enfarto ontem à noite... uma luz estranha se acendeu, me disseram que era um planeta, mas parecia uma estrela, e eu disse: "mas essa porra está longe, longe" e me amordaçaram e disseram "aqui, aqui, aqui você estará bem" e me colocaram um casaco branco e disseram que aqui é meu lugar. Me deram um computador e esperaram que eu fizesse alguma coisa, e eu lembrei que poderia salvar o mundo hackeando do site do ministério da fazenda. Malditos, Malditos, vocês estão me olhando como uma coruja presa no aviário... os meus olhos são grandões! Vou te pegar, filhos da puta! Enfiar a faca no coração de porco de cada um de vocês... lunáticos, marcianos, estranhos, senhores-muco, peças estranhas do meu tabuleiro de xadrez! As peças me jogam... as peças me jogam... eu era o rei, e não me mexia mais que uma casa. Estou em uma outra casa, dizem que é a torre, mas é mentira, eu sei, é mentira. Quero voar com asas de pomba... pomba gorda, com os olhos vermelhos, as asas verdes e olhos de castanha: nózes, senhoras nózes com jambolão. Açúcar, açúcar, que desespero? Desespero? ONDE ONDE, FILHOS DA PUTA, TRANSFORMARAM O MEU TETO EM CÉU!!!!!!!!!!!

19.5.09

As vértebras do tempo

Sempre tive medo
de não
viver o suficiente.

Hoje minhas costas
doeram. Doeram e
travaram meu corpo. Meus dedos
não tocam a ponta dos
meus pés. O estranho
desconforto de envelhecer
antes do tempo me
marretar as vértebras.

Tenho 22 anos,
e não tenho
mais gastrite. Tenho uma
paz estranha que nasce
de dentro e impregna
o queijo do
almoço, a bisteca
frita na pequena
frigideira, o suco
de goiaba, as conversas
em óleo e vinagre. Parei
com a pimenta, parei
com o café, parei
com meus cigarros. A palha
já não queima o tabaco, e meu
cheiro é mais agradável.

A vida pára em
voltas estranhas,
como as pessoas
presas no alto
das rodas gigantes.

Mas eu não salto lá de cima,
porque o tempo, mesmo parado,
ainda gira,
e eu não pulo
da vida antes que
ela pule de mim.

11.5.09

Sobre os sonhos dos teóricos

Eu tenho um sonho, não nego. Quero que a voz dos homens se calem diante da estonteante realidade das coisas. Quero que os objetos esquecidos apareçam, como aranhas escondidas no sotão, e botem terror na casa dos velhos aposentados. Se a teoria fosse um esporte, eu seria sociólogo. Mas não sou. O que eu quero fazer é trazer à tona a maravilha esquecida das coisas. Quero que os mestres se ajoelhem diante do mundo que eles não conhecem. Quero que os objetos surjam de suas concavidades e os injetem veneno para matá-los de desgosto. Quero que o esquecido volte-se a eles e diga "estou aqui!, você não se deu conta" e mostre que o pensamento será sempre insuficiente para a grandeza do mundo. Meu sonho é que a teoria sirva para nos trazer essas coisas pequenas, os sapatos desamarrados, as músicas de elevador, o instante silencioso do café da manhã, o jantar que tem gosto de alho, a filosofia que não deu conta de explicar os cachorros de rua, o mio dos gatos... Eu quero que a teoria se erga da Terra como um pilar de pedras, e inquiete aqueles que dormem tranquilamente em seu sono epistemológico. Há uma guerra lá fora, e eu quero fazer parte dela. Quero estar do lado das coisas, lutar por elas, e ver o que ninguém viu, e levar a teoria onde ela não pode chegar. Eu quero que o mundo renasça de suas próprias cinzas, e que o inexplicável seja o espírito risonho de nosso apego sem limites à vida.

9.5.09

Escrita automática é pra quem sabe, não pra quem quer.

Senhor, eu venho de muito longe, e de muito longe eu venho. Na minha terra as coisas são estranhas, como aqui na minha terra as coisas não tem tanta estranheza assim. Parece que não consigo pensar com imagens, nem ver os peixes coloridos que habitavam os meus pensamentos. Tudo se esvai, e se esvai e adeus! Queria que o computador me dissesse o que dizer, mas daí é esperar demais! Digam o que quiserem, que é tudo uma grande besteira, mas eu sei que Nietzsche me olha lá de cima, me olha do seu mundo livre de metafísicas. Niilismo é uma palavra sem açúcar, que não engorda e não faz crescer. A banana é vitamina que a calabresa nos engorda! AManhã isso tudo não fará sentido algum, a quem quero enganar, esse monte de besteira não me leva a lugar algum!? Isso não era pra ser uma pergunta! Era pra ser uma afirmação, uma afirmação das palavras e da vida... mas eu estou muito cansado, tenho só 22 anos e já sinto o peso dos meus 80 dizendo "não faça, é tudo em vão!". Mas não é, eu sei que não. Nem que apenas duas pessoas me leiam e saibam que tudo isso não passa de besteira! AH VAI TOMÁ NO CU! Esse negócio não dá certo...
Quando as tartarugas buzinam
e te chingam no trânsito,
e os cágados com o dedo
do meio rígido
como um
cacete de diamante,
o mundo todo desce
do céu com
uma bola de futebol
e se encurva em tua
cabeça.

Pra que tanta pressa,
se a vida é longa
e a morte é uma constante?

Não quero comer sucrilhos
como quem deve a Deus
uma missa de domingo.

Meus olhos são só dois
para tanto mundo
e para a inércia veloz
com que ele gira
em torno
de mim. No meu umbigo,
uma piscina de exageros
transborda: o trem passou,
e eu não vi. Pra onde
eu fui e pra onde
eu poderia ir? Nem a epistemologia
pode me salvar de todas
as coisas que não
conheço, mas que
me espreitam com
o rabo do canto
dos glóbuculos.

Não há coisa alguma que nos escape
e não nos deixe
boiando sobre
uma líquida
angústia? Os objetos
que me cercam
e suas marcas de ciência,
onde estão as trevas
do mundo? Tudo em
minha volta
está pendurado por um fio
que não tem origem,
e que não está
preso em teto algum.

7.4.09

Sobre coisas bobas

Os franceses dizem
que querem
a liberdade, mas sempre
fazem do jeito
mais complicado. Eu os achava
bobos como as crianças
ao ler
o livro do André
Breton que tem nome
de mulher, mas que de mulher
mesmo ele só fala depois
de 40 páginas com coisas
estranhas. E eu
achava engraçado também que
ele, falando tanto
das coisas simples
e automáticas
e das belezas convulsivas
- como as espinhas, vulcânicas da pele -
e de tudo isso que antes de ser livro
já era manifesto,
não conseguia escrever realmente
sobre bobagens.

Quando ele encontrou a tal
da Nadja, ele ficou conversando
com ela sobre o trabalho
e o tempo livre e
a liberdade - acho que
ele conversava com a própria
mãe como quem faz um manifesto -
, e eu
,lendo tudo aquilo,
só queria saber se ela
era tão bonita quanto
parecia ou
se era mesmo convulsiva
como os livros
que ele pretendia
escrever e as espinhas
que na minha cara
a Duda costuma
apertar.

3.4.09

Uma coisa eu queria
que houvesse
em todos os poemas.

Que eles fossem furiosos
como a vida, que
fossem ritmados
como os
espirros.

Uma coisa eu queria
dos meus poemas,
que eles fossem bêbados
de cachaça, e pudessem
correr sozinhos
por aí a falar
besteiras.

Eu queria mesmo é que
os poemas fossem isso,
mas eles não são.

E eu fico até contente de
saber que o poema não
é a vida,
senão eu apenas
escrevia, e o resto
todo era uma
piada.

1.4.09

Quando eu me olhava no espelho e me via feio, feio de doer os dentes por dentro, e escrevia poemas sobre a feiura pra ver nas palavras alguma beleza, era mesmo porque eu estava endoidando. Hoje eu estou calmo, estou tranquilo, nada tenho na cabeça senão a cabeça. E em mim, lá onde a gente parece que sabe das coisas, hoje eu sinto falta daquelas coisas bestas. Porque hoje eu leio meus poemas antigos e vejo minhas fotos velhas como quem sente pena. E quando eu não sentia pena, vivia cada problema como o último suspiro antes da morte e não pensava que tudo aquilo era bobagem, que ia passar mesmo.

As coisas passam, e são bonitas... e nós somos bestas de aceitar que elas passem antes delas terem passado.

Hoje eu sei que eu gostava de ser feito e de escrever poemas sobre ser feio. Mas já não adianta...
Um desespero, lá no fundo
da vírgula, no
hífen trêmulo, nas coisas
da linguagem. No fundo,
lá no fundo, bem
no fundo,
dentro de tudo
quanto é
traço, letra, bicho,
lá no fundo do
humus, das minhocas
no mucu, das
rosas esparsas,
dos homens
sem graça, lá no fundo
do teu rabo,
o cu, no mais longe
que você
procurar, o centro
da Terra, o magma
encantado...

...lá no fundo, dentro
de tudo, no ruído
mudo do poema
não há
absolutamente
nada.

24.3.09

Quem de nós saberia o motivo de não querer paz alguma e torcer, desesperadamente, para que o chão se rache e teu peito exploda? Há uma bomba no meu peito, vermelha e constante, que não explode sem me levar com ela. Eu tenho em mim uma bomba de carne, uma bomba que não explode.

O gato por dentro

Eu tenho um gato no coração,
um gato negro que
pela noite camufla
os pêlos densos
e só se deixa
ver pelo mistério
iluminado dos
olhos.

Eu tenho em mim
um gato, escondido,
lá no fundo, que se
todos o vissem
nas madrugadas,
não seria mais um gato,
não seria mais
um gato, não seria
mais.

Eu tenho um
gato por dentro.

Um gato
por dentro,
que me arranha
em fúria a carne
do peito e
se insinua
no brilho
do fundo
dos
olhos.

22.3.09

Há uma estranha calma no ar.

O vento é frio,
mas pelo menos se move.

Eu não me movo.

Quando o vento bate
nos braços,
doem-me os ossos.

Os ossos são
as coisas mais duras,
mas as que mais
sentem medo
do frio.

Eu tenho em mim ossos frios,
de onde brota
uma dor
estranha.

17.3.09

Eu já não tenho medo.

Me tornei um homem que, de tanto perder, perdeu seu medo de perder.

Minha doença é estar vacinado.

Eu sou um homem vazio por dentro,
e por fora nem um sorriso hipócrita carrego.

Sou um cara sem desejos e ambições.

Sou um peso para as portas
,como as tartarugas de areia,
mas parado ao pé das portas fechadas.

Eu tenho em mim a estranha certeza
das coisas inanimadas.

12.3.09

Os pecados de domingo

Essa vontade idiota
de tudo ter
nas mãos e de todos
os livros do
mundo ter decorados,
para citá-los
na hora do
desespero; isso não
serve para
nada.

Há mais fúria
no café do domingo
que nas mais
sangrentas
guerras civís.

De manhã, quando o
sino da igreja
soa, todos os
nossos pecados são
intimados a
comparecerem ao
altar; mas eles não
vão. As pessoas
realmente felizes
ficam em casa,
cultivando seus pecados,
lavando as roupas de toda
a semana, chorando como
crianças quando
os seus joelhos
se ralam,
beijando a mulher
que se ama,
penetrando-a
com o riso no canto
dos olhos... do
que seria a vida
sem a santa
fúria de todos
os pequenos
pecados do mundo aos domingos
de manhã, sem as
tristezas bobas
que nos deixam anciosos,
sem o desejo besta
de brigar por
causa do último
pedaço de bolo com
o teu irmão pentelho?

Quem seria tolo de querer
,finalmente,
a paz eterna?, a calmaria
dos ventos polares?, a estranha
sensação
daqueles que já morreram
,sem dor alguma,
enquanto respiram
em pé aliviados?

7.3.09

Sei que as coisas
tem sua forma
e seu cheiro,
sua carne e o sangue
que delas escorre
quando as cortamos
com as palavras. Mas também
sei que não há como esquecer
o que se fala quando
o cheiro da
carne nos invade
as entranhas.

Não sou muito diferente
do lixo que jogo
fora. Se não sou
a merda que
cago, é uma mera
questão poética
dos intestinos.

Os homens são feitos de
palavras mais do que
ossos, gordura,
pele, matéria morta,
os 73% de água
e um coração
cansado; não são
o peito e as axilas
tão cabeludos quanto
as palavras
que deles
brotam ou
que neles
se instala.

O homem é esse bixo estranho
feito de palavras,
que não cheira a comida
que come,
que beija a mulher que ama
e que escreve poemas
na madrugada.