14.12.09

Eu não sou jornalista! (foda-se o diploma)

Eu não sou jornalista. Jornalista é quem está na rua se fodendo atrás de notícia por um salário indigno, ou quem acha que a comunicação pode salvar o mundo mais do que o piorar. Eu sou só um cara que se formou em uma área de conhecimento que, se não tivesse o mínimo de diálogo com outras áreas de humanidades, teria sido apenas 4 anos de lavagem cerebral e leituras desnecessárias. Quando me perguntam sobre jornalismo, digo apenas o que sei sobre isso: que é uma prática desnecessária na vida das pessoas, e que se baseia em três únicos princípios que não quero engolir: o de que as pessoas não sabem nada, o de que as pessoas precisam saber de tudo, e o de que as pessoas que sabem precisam falar tudo para as que não sabem nada. Cansei já de, na faculdade, forçar as pessoas da rua a me dizerem coisas que não queriam dizer, dar opiniões sobre coisas que não entendiam bulhufas, só pra caber no molde de uma reportagem de viés "crítico"; também fiquei de saco cheio de ver discussões infinitas sobre assuntos que só causavam transtorno e guerras ideológicas; vi muita gente brigando para falar o que bem entendesse sobre um determinado assunto, e vi o horror que é ter professores cabeças-duras falando as mesmas babaquices sobre a necessidade E/OU impossibilidade de objetividade, sendo que eles sequer sabem o que significa a palavra objetividade, nem o que significa subjetividade, nem qualquer um desses termos que na filosofia são debatidos há 500 anos e que na teoria do jornalismo não passam de dogmas, ora contestados, ora afirmados. Pra dizer bem a verdade, tudo o que o curso de jornalismo me disse a respeito do que é o jornalismo só me serviu para saber o que o jornalismo não deveria ser. Sei que existem bons jornalistas, sei também que há um bom jornalismo, mas, por isso mesmo, sei que ele não é tão importante quanto pensa que é, e sei mais ainda que as pessoas que estão envolvidas com ele - do repórter mais impotente aos donos dos conglomerados - giram em torno de questões e dogmas que, infelizmente, persistirão por um boooooom tempo.

Quando me perguntam se eu fiquei puto com a queda da obrigatoriedade do diploma, eu digo que não dou a mínima para isso. Aqueles que ficaram putinhos com a queda do diploma são de duas espécies: de um lado, aqueles professores de sindicato que, na aula de ética e história do jornalismo, ensinaram que o curso e o diploma foram criados pela ditadura militar para controlar a informação, mas que agora acham bom o diploma por uma questão sindical, salarial e etc.; os outros são aqueles putinhos que ficam reclamando da falta de emprego, dizendo que a faculdade é que faz a diferença do bom e do mau jornalista, e que na verdade passaram 4 anos de curso burlando professores, trabalhos e tudo mais pra poder tirar um dia de folga, e agora estão mordidinhos porque "estudaram" quatro anos que não farão diferença alguma. Onde existe comunicação, sempre existe um antro de hipocrisia. E onde existe sindicato, existe muito mais hipocrisia ainda.

Pra mim, isso que chamam de "crise do mercado de trabalho" nada mais é que a prova cabal de que ninguém precisa desse tsunami de informação que os jornalistas acreditam ser tão importante para o mundo. Se os jornais enxugaram, se as revistas faliram, se o rádio perdeu se lugar, blá blá blá, não é porque o mundo está acabando, mas porque o mundo não precisa de vocês... a informação se impõe sobre a vida das pessoas muito mais do que elas precisam da informação. Não vejo crise nenhuma. Vejo apenas aquilo que está óbvio, mas que o dogma dos cursos de comunicação e dos jornalistas não deixou ainda que esses profissionais enxergassem: que ainda que muitos sejam bons, são ainda inúteis, e sempre foram, e sempre serão.

9.12.09

O poeta é o pedaço do mundo que se estica madrugada à dentro sob um colchão de carne e abocanha as palavras e as condena ao abismo sombrio da própria garganta, o grito (o horror! o horror! destruam todos os brutos!) sem ter por onde passar sem olhar para os lados esperando a morte que o persegue e que às vezes é preciso despistá-la (morrer, morrer, meu Deus da morte, carregar-se até o infinito da vida, virá-la do avesso, esperar por um segundo de paz - a morte, a morte, a morte -) terror dos homens em suas vidas calmas, a calmaria das estrelas os ventos polares os monges de braços abertos (usurpa-te profeta da luz, usurpa-te da própria poesia, faz da palavra o mistério dos aflitos, faz com que ela seja lição de pedagogia, mostre-a às crianças e peça-as para inquirí-las, queime-as na fogueira (os poemas nunca merecem o mundo dos poetas) e enfia-lhes uma lança no peito - senhores deuses cantos a dizer ABRAHAMMUNDODEDIDIDIAA!!!!! BATE- nos olhos !) SUMario Dá a vida pra quem quer
daaaaaaaaaaaaarrrrrs dirzersada ROçizerial, o mundo sob o olhar de quem quer dizeeeerrrrrr algo sobre o que não diz nada 0e9djsj (soldados, soldados, o poema é este pedaço de carne a apodrecer entre as palavras) suspendam-no ergam-no façam-no beldade enfiem-lhe o nariz na guela solvam com os dentes raspem com as línguas ANGUR, MITUR, IGTUR, FRAZ, GRAZ, HANKS, branquichava, senhores-muco-deuses mortos-em-corpos-solitários profetas sem sonhos sonhos de deuses sem nomes nomes sem deuses palavras ao vento (TRÁGi-direeaeeeeeaaaaaar´éééia asd JRJT djkçlmad. vap]ons
ml~vaiapsomo´l
gbjopa
aomsodjdkvd \SAMFDKOA salmd sm,slaori dor ror dor dor dor dor dor dor dor dor rod doas dasdjas ror rod ririd dpoeoeoeoeoe dorororor rorororororororordeps aaasapra ssss ssu suumm suuummm spraddasd RARR RARRR AMÁGUA PERDER-SE MORRER-SE ALTURIZAR-SER_CORRAM, corram, corram!!!! as palavras te perseguem fefrriri asdlkaskd RÀ, às mãos por sobre aos montes - caguem-se e comam lakshr vrá vrá vrá, cráquitepuiacerto, mandaquyórtes quiexpluda a M´SUCICA A M´SUCIA O ERRO, bandalerite, alguem averigue a verdade por sobre SIRMTARTZU

O POETA é DEUS, o poeta é Deus o poeta tem o mundo sobre a ponta das unhas a terra o envolve - a TERRA O ENVOLVE- senhorcatapulta-sonhosfrustradoshomens-gelados-amorsemcandura-tremem os céus- os deuses disseram que sobre um pote de luz e de estrógeno e queratina e proteicos-monstros da consciência - quem sou eu, junkie food ambulante drogas a corromper o pensamento poema sem dádiva clamorrrrrr da morte

A função do poeta é a função dos deuses: morrer no tempo e tempo-fazer-se, correr por linhas-sem-frontes abraçar-o-mundo com o gesto de alegria


TRA TRA RRRAAAAA HARASRITITUIACAMANGONA- WARTAEEEEEEEEE CAMARIPTUCRAIAMóRSTIFODREPRACRAPACROBAINA tra TRÁ, VRá, trá giasrurlescro, trépido, crônico, crômico, cômico, obsoleto

sedam-me
e voltem
para a escola

7.12.09

O exorcismo do passado

Sente os ossos por dentro, sente? A fria dor dos ossos, que de dentro pra fora chicoteiam-te os braços, queimam teus nervos e liberam a pestilência do teu passado. Não há nada mais rasteiro e peçonhento que o passado, a tua vida antes de ser você agora, o antes do hoje, aquele dia estranho em que te cravaram cinco balas no peito, uma faca nas costas, o pau no seu cu, o sonho pérfido de sonhar com o futuro. Queira você ou não eu estou aqui e aprendi muita coisa, e sei dessas coisas porque morri nelas; me chamam de impiedoso, ou talvez não me chamem de nada, mas é que (o que eu fiz aquele dia, pegando na mão dela e ela de repente pulou pra trás com o espanto como se eu fosse o demônio a puxá-la para o inferno e eu quase bati o carro porque era grosso e estúpido e não sabia lidar com aquelas coisas, e hoje vejo que foi melhor assim que ela me odiasse sem entender o amor que senti por ela, o amor passageiro que eu sabia que ia acabar e que ela transformou em ódio e eu a odiei por isso sem saber, e naquela noite em que bebemos caipirinha como se fôssemos pequenos deuses nos telhados lúgubres de Londrina, caminhando e rastejando pelo apartamento encarpetado onde certa vez eu a toquei com a língua e o seio - e por isso mesmo um dia fui chamado de hipócrita, e não sei bem porque, porque o mal não é amar, nem destruir-se no amor, mas muito mais dizer que não se importa - e foi bem naquela casa revestida de colchões que eu soube, por um momento, por um segundo, que as pessoas não cabem na palma de nossa mão - mesmo que seus seios estejam lá, mesmo que as toquemos por baixo, mesmo que nossa língua salive por elas) isso seria coisa de gente impiedosa, apenas querer e não ter tido resposta, deixar-se levar por certas coisas. O cigarro na janela, ela veio em casa, um trimilique no peito, me disse algo que eu sabia que não era verdade, mas eu acreditei assim mesmo, e ergo as mãos para o céu para agradecer o quanto fui ingênuo aquela noite, e sei que já não o sou, e por isso dizem que sou rancoroso só porque aprendi, com meu próprio passado, obecendo-lhe em tudo o que ele me disse, que é preciso esquecê-lo, que ele não é digno de permanecer em você (as barbas do meu bigode, o fio ruivo e gigantesco que escapa-lha, amanhã, talvez, senhores, a velhice me bata e eu sinta vontade de esquecer tudo isso que eu disse, e eu sei disso, porque no passado há muitas coisas e pessoas, há luzes e gente que corre pelas ruas gritando coisas estranhas, há loucos e pérfidos, há violência como nunca se viu, há aqueles que em suas mãos tem tudo e atiram para o alto e há aqueles que não tem nada e seguram esse nada com uma convicção idiota, impossível de se acreditar) eu estou mesmo é ficando velho, e sei que me tornarei um velho sem coração - e acho mesmo é que, numa dessas noites em que te fodem pelas costas, arrancaram meu coração e eu nem percebi, esconderam a cicatriz (lá dentro, bem dentro da carne, onde ninguém pudesse vê-la) e levaram-no embora para colocá-lo num pote de picles. E eu gosto disso, talvez ele tenha ficado gostoso lá, quem se importa? Sei que tiraram um peso do meu corpo, e se me transformei nessa pedra pesada e estranha que já não chora senão quando sabe demais o que é (e é por isso que eu não queria saber quem sou, pra que pudesse permanecer sempre assim, inocente, sem compreender meus erros, sem cair no poço infinito de quem pensa que sabe o que é), eu olho pra mim mesmo e sei quem não sou: eu não sou aquele que estava lá atrás e que foi deixado sem nem um poema poder ter escrito, sem poder dizer adeus, e que foi encontrado por uma estranha coincidência na hora errada, e que disse a Deus que queria que eu fosse padre "o senhor mesmo me tocou quando eu não sabia o que você queria, e agora que sei que você não existe, sinto uma imensa segurança em pensar em você e beijar teus pés e te adorar como o grande vazio da vida - obrigado, Deus, por ter morrido e ter matado assim o nosso passado, o passado desses homens que pecaram por amarem-te demais e que nunca irão se arrepender de nada, porque o conhecem bem o suficiente para não reconhecerem seus próprios erros", foi bem assim que eu deixei tudo para trás.

Mas uma coisa que ainda dorme aqui e que sempre que eu a vejo, lá longe, vestida com roupas estranhas e um sorriso inquieto, correndo pelo lago ou rindo bêbada ao som de uma voz gutural, é que tudo foi mal compreendido, é que todos entenderam errado, é que eles venceram porque eu não tive como ensinar-lhes: ó homens, filhos do vazio, loucos acorrentados que têm nessa corrente a maior das liberdades, vocês sabem mais do que eu a respeito da vida, sabem matar e pisar naqueles que te amaram, sabem sorrir impiedosamente de suas maldições, sabem reclamar da vida a todo instante, sabem não amar a si mesmos e nesse ódio mortal contra a vida destróem aqueles que estão ao seus lados e pensam que são o centro do universo - porque só no centro seríamos capazes de não nos perdermos - vocês que elogiam a loucura porque não sabem o que ela é, e que se soubessem não se entregariam às suas sombras, vocês que riem dos próprios defeitos, da própria crueldade, e depois correm aos palanques pedir desculpas, botar a culpa no álcool e nas drogas, botar a culpa nos outros, vocês que elogiam o descontrole apenas na medida em que é riso e palahaçada, mas que nunca se perderam, nunca puseram seus chinelos na mão e sua camiseta roxa cavada e andaram pela praia de Santos sem saber o que deviam fazer, vocês que nunca afogaram-se madrugada à dentro num turbilhão de sonhos frustrados fedendo a arroz feijão e ovo frito, vocês que não tiveram folhas atoladas no cu por um desconhecido enquanto seus amigos o chamavam de covarde pelas costas e suas pupilas dilaceravam-se e cresciam até o infinito, à beira do coma, no sono profundo de quem vê e não mexe as pernas!!!! AH, vocês não sabem o que é isso, perder-se completamente, pegar cacos de vidro espalhados na areia de santos, pensar que é louco por uma só vez, e não saber qual caminho tomar, chegar de manhã na escola com os livros na mão e só conseguir chorar, e sem saber por quê, e se sentir um grande idiota por não saber por quê, e correr como o diabo para dentro do quarto escuro, ouvindo músicas tenebrosas que te espremem o pescoço!, vocês que nunca atolaram seus olhos em ovo frito com gema mole e acordaram no outro dia achando que não teriam mais pescoço por baixo da cabeça, e que se sentiram sozinhos, extremamente sozinhos, infinitamente sozinhos, e que só precivam de um pedaço de papel para escrever, e você não sabia porque, vocês nunca passaram pela experiência da morte (isso vocês nunca aprenderam mesmo, porque fazem o elogio da vida pelo o que ela não é, juventude triste e solitária, que cultuam deuses em formato de cigarro e cheiram deuses brancos e finos que no pulmão transformam-se em coragem descontrolada e violenta, que te fazem sentir Deus porque vocês nunca puderam ser Deus sozinhos, sem esses Deuses dentro de vocês) - a vida pra vocês é isso? trepar, beber, foder, sorrirem como bobos porque destruíram leões e violentaram paredes? A verdade é que vocês não saberão nada da vida até que tenham morrido, morrido até o limite, matado-se, transposto o limiar da razão, afundado-se em no seu próprio interior, ter tocado o Vazio-primordial, o Nada e a potência da Vida lá onde ela é sombra e dores e sangue e estrume e sexo e Deuses demolidos... só lá, na morte, vocês saberão o que é mesmo a vida, essa que pede a todo momento que você morra e esqueça o futuro e o passado e o presente, e que implora para que o tempo seja uma ampulheta frita numa frigideira e temperada com requeijão e tomilho... só nesse lugar você saberá porque sou cruel e baixo e não perdôo o passado, mas por uma única razão: a vida está aqui, e não lá, e vocês me mataram sim, todos vocês, mas foi tão somente para me dar essa vida, essa única e bela vida, essa morte essencial, o último grande suspiro do meu diafragma que, lá de dentro, daquela cicatriz onde meu coração foi puxado para fora, agora pode criar uma morada; lá eu vivo sem passado, e deixo que vocês fujam para esse sonho frustrado que é a vida antes da morte.

Você é Jim Morrison, você está morto

Não deixe a raiva
tomar conta
de você! Não deixe
que teu pau
endureça e te leve pelas
estradas solitárias
da punheta que fode
o mundo; não deixe
que você se encontre com Deus
e sua vagina de
LSD e sua mente de poeta
e seus olhos vermelhos
de dor e sofrimento
não deixe que os teus bagos tomem
conta de teu corpo,
não deixe que o esperna inunde
teus ouvidos e a merda
corroa a tua alma;

não pense que você irá
se encontrar com uma verdade maior
nem que os anjos
te levarão daqui
porque às vezes
as portas da percepção são
também as portas
que te arrancam os
dedos;

não atole a própria língua no
cu, Jim Morisson, seu boçal
espírito funestro
da juventude, utopia
de zumbis a caminharem
sem vida pelas calçadas
rumo ao centro do sol
com seus cabelos esvoaçando
e os dentes caindo
podres e verdes
no chão, semeando a morte com
caninos de vampiro
e regando a terra
com o sangue de tua
estupidez;

Jim Morrison, você
está morto, você morreu, você
enfiou os pulsos por dentro
do cu, afundou-se na própria
merda e virou do avesso e os dentes
ficaram no cu e a boca comeu
merda. Jim Morrisson, profeta
do cu de ácido, dentes mastigando estrelas
sob o céu noturno do Alaska, castigo
eterno do mundo, senhor-muco,
cérebro frito à milanesa queijo
dos póros cabeça ensebada
do pau monstro atroz
mancha de
sangue no
inferno transeunte
da lei da ilusão
morte inútil e vida perdida
cavaleiro sem
cabeça a caminhar pelas
estradas noturnas
da humanidade, eu te digo,
Jim Morrison, você
está morto, você está
morto, não se esqueça que você morreu,
não se esqueça que seu
corpo podre sumiu do
mundo, não se esqueça
nunca que sua vida foi inútil, e que os
Deuses todos clamam pelo
castigo que um dia
irão lhe aplicar.

Jim Morrison,
canto de liberdade suicida,
combustão da morte em liberdade infantil,
sonho perene de ser Deus na podre carne do homem,
morte concêntrica que se morre em negatividade,
pau solitário que sangra o próprio rabo e chama isso de amor,
loucura simulada que espera por um raio de luz nas frestas das cavernas,
triste tragicidade que se dilacera em nome da razão,
monstro solitário escondido sob a máscara conivente de poeta,

Jim Morrison,
seu pedaço de merda,

você morreu!

29.11.09

A maldição de quem pensa é pensar que sabe

Sócrates certa vez disse "só sei que nada sei". Esta é uma daquelas frases que, se não tivesse contexto, simbolizaria a plena humildade daquele que se admite pequeno diante do mundo. Mas, na verdade, a frase era uma crítica aos sofistas e aos oráculos justamente por acharem que tinham a verdade, quando não a tinham. E por um movimento de ironia, Sócrates afirmará que não sabe, mas apenas para dizer que quem não sabe são os sofistas. Somente ele mesmo, o grande Sócrates, tinha o poder de conhecer a verdade, e isso porque ele usava o grande método, a dialética, que neutralizava todas as opiniões em favor de uma única, incontestável e universal verdade (a dele mesmo).

Quase dois milênios se passaram até que Descartes pudesse dizer o famoso "penso, logo existo", partindo assim da verdade mais incontestável de todas para então poder ter certeza de todas as outras coisas do mundo. E para nós, os modernos ateus, soa até estranho pensar que a segunda maior certeza de todas era a existência de Deus, já que Deus era a pura bondade e, portanto, a pura verdade, ao contrário do Gênio Mau e seus métodos traiçoeiros de iludir-nos. Foi assim que, numa só tacada, Descartes aliava a verdade do lado do bem, colocava Deus como o aliado do homem e o homem como o fundamento da verdade. Assim, o homem que estivesse aliado à verdade seria o bom homem, e aquele entregue às suas ilusões seria ou louco ou mau.

Mais alguns séculos e lá vem o jovem Marx, e sua belíssima teoria da alienação. Creio que fazemos uma grande injustiça quando dizemos que Freud descobriu que o homem não é senhor de si mesmo; creio que o primeiro a fazê-lo, ainda que tangencialmente, foi Marx. Porque, ainda que ele tenha sonhado com o socialismo, com esse estado da sociedade que era o próprio estado da verdade, fase hitórica onde o homem se conheceria por completo e estaria enfim ao lado do bem... mesmo assim, ele foi o primeiro a dizer que a natureza humana é uma natureza histórica e que, portanto, a condição natural do homem capitalista é a de ser um estranho a si mesmo, um "alienado". O "Deus" de Descartes é sim o socialismo de Marx; mas nunca Descartes admitiria que a verdade do homem atual, do homem presente, é a de ser um alienado.

Eu admiro Marx por sua coragem. Admiro os anarquistas que vieram a seguir. Admiro também muitos destes homens que acreditaram no que acreditavam, e se banhavam de sangue com armas na mão impondo uma guerra em nome da paz. Mas esse homem já morreu. E eu não quero ser esse homem. Creio que há um problema de quase todo filósofo: é que ele quer ter a verdade, é que ele quer tornar sua própria verdade a verdade do mundo. E só há uma coisa mais odiável ainda em um filósofo do que essa pretensão: é a pretensão de achar que a verdade e a consciência de si mesmos está sempre ao lado do Bem.

Toda espécie de utopia é baseada nessa idéia um tanto quanto antiga de que a verdade é uma coisa boa, de que a ignorância é uma coisa ruim, de que a consciência me faz ter algum controle sobre as coisas, de que a consciência me faz um homem melhor. Esta é uma idéia de que dificilmente nos livraremos. Anarquistas e marxistas continuam a criticar o nazismo por ser o puro mal; mas não ousam criticar no nazismo justamente aquilo que eles também pensam : a busca da verdade, a busca do bem, a busca do homem ideal, a busca da sociedade ideal. E se metade do mundo já foi uma vez fascista, não é porque o homem não tinha consciência de sua existência, mas foi justamente porque ele a tinha demasiadamente, a ponto de ter movimentado o mundo da forma que fez. Criticaram "A Queda" por retratar um Hitler que era carinhoso com seu cachorro, como se ele tivesse que ser mau a todo momento. Talvez a crítica tenha sido feita justamente por não aguentarem reconhecer que, tal como todos nós, da velhinha da esquina à meninha com sorvete na praça, aquele homem amava os animais. E sabemos, não é mentira, que hoje em dia é quase senso comum que qualquer vaca num pasto distante é mais simpática e digna de amor que os nossos vizinhos de condomínio mal humorados, ou a pessoa que está ao nosso lado no trânsito.

A ignorância é uma dádiva. O português simples também. As palavras erradas e a pressa de viver. Os poetas são monstros covardes, porque são utopistas que só falam, e por não fazerem nada estão livres do erro. Os ativistas são piores ainda, porque fazem e acabam cometendo os erros que os poetas não cometem. Saramago é um chato, pois não admite a cegueira; Artaud era um bom homem, porque destruiu-se na violência de quem não quer fazer enxergar. O silêncio é belo, porque a morte está sempre nele. Aceitar a morte é a maneira mais sincera de aproveitar a vida. Ser uma boa pessoa não tem nada a ver com consciência, nem com Deus, nem com a verdade, nem com a busca de uma vida melhor ou de um mundo melhor. Quem busca uma vida melhor é porque não gosta da vida que tem. Ser um ignorante é ser uma boa pessoa. Aqueles que se acham bons e que sempre tem razão em tudo vivem constantemente em depressão, largados pelas suas mulheres e rastejando no chão com a tristeza de quem não quer ter tristeza, com o sonho de que as coisas sejam como eles queriam que elas fossem. Eu já fui assim... eu já passei por muitas das grandes merdas que me faziam pensar que eu estava certo em tudo, que minha vida era cheia de azar, que eu deveria chorar sempre que o mundo não fosse como eu queria que ele fosse. Mas não sou mais, porque sei que as pessoas que pedem para não comermos carne, para melhorarmos nosso condomínio, para lutarmos contra o capitalistmo, para lutarmos pelas causas mais obscuras são iguais às pessoas que proíbem a inocência suicida de quem acende um cigarro dentro de um bar, ou proíbem o uso de maconha em favor da vida e da família. Toda utopia é uma grande construção de prisões, e não há nenhuma que seja melhor do que outra.

Eu gosto do Marx que diz que a natureza do homem é a de ser um alienado; não gosto do Marx que diz que o socialismo é o estágio final da verdade do homem. Eu gosto da minha alienação, porque ela é inocente, porque ela não é utópica, e porque ela não move montanhas e destrói mundos pela busca de um bem ou de uma verdade maior. Eu gosto de tratar bem meus vizinhos conservadores de direita (sabendo mesmo que não sou como eles), e não vejo problema algum em chutar um cachorro que quer me morder - e admiro o cachorro por querer me morder, porque ele não tem utopias. Talvez aqueles que defendem os animais tenham razão em dizer que um animal é bom porque não é como o homem (se bem que, para eles, as baratas podem ser pisadas, porque não tem a expressão humana de um mamífero, ou simplesmente porque são sujas e comem minha comida); e eu concordo com isso, a ponto de querer ser eu mesmo um animal sem razão. Porque, como diria Caeiro, - e, pra mim, ele sabia das coisas, justamente por não saber - "a eterna inocência é não pensar".

E assim eu levo a cabo as palavras de Sócrates, mas sem pensar no contexto em que elas foram usadas... leio-as como coisas opacas, e tiro delas apenas o significado que nela está óbvio e simples: "só sei que nada sei".

Não há maior liberdade que não pensar

Senhores, o poema
está aqui
e talvez não seja
pura comunicação; talvez
eu não pense
nele e em tudo o que
eu diga não haja
mais que um silêncio; talvez eu
não seja o gênio que todos
esperem em um grande
poeta, e talvez mesmo
que eu não seja um gênio
e que meu poema seja
pobre e triste como
as velhas
hipocondríacas
(que procuram e
não acham, que procuram
e não acham, que
procuram até achar), talvez
mesmo assim o poema
não esconda
nada por trás
de sua forma opaca.

Eu não estou aqui
para fazer metalinguagem,
porque essas coisas são coisas
de quem não sabe o que fala. São coisas
de quem só quer fazer o poema
porque acredita no
poema, e acredita que
ele seja importante, e quer
que ele seja; mas ele
não é. E eu, que aqui
não passo de um par de mãos
e um pau cansado,
um corpo ameaçado
pelos vapores obscuros do verão e
pela hérpes que me mastiga
as genitálias, talvez eu,
esse corpo, esse homem vencido,
não tenha nada para
dizer, e talvez isso seja
justamente aquilo que
encravado em sua
carne (o silêncio,
as sombras, o mundo
que não foi e que
poderia ter sido e que
mesmo assim não
foi) é mesmo
a sua única
e plena
liberdade.

20.11.09

Três, sete oito nove
dias de pura merda, a merda
que te abraça e te
pede um centavo a mais
um gole de pinga a merda que
te queenrodasca a merda
da merda.


tudo é isso não há palavra que
se fica no corpo e não se transforma
em merda, em merda é que que vou
não sei quais as linhas
não sei queal a linha do cu
a mdh tor forma de
curioso não olho para
mim mesmo não vejo nada
em mim um calabouço de dores as palavras
que me correm pela veia e incendeiam
a noite com suas palavras de sombras
e nos ombros dos homne
a dor de a dor, o horror, o horror cortem-nes as cabeças!!!!!!!




Palavra sem cabeça
palavra sem cabeça
a pobre palavra sem cabeça que não pensa e não se vê mas que
corre como quem corre como quem corre
tenho preça de escrever amanhã é outro dia a e vicai di d vida a vida, não pára
ca vida continua a vida prossegue glossolalia
do r odddia o som que está nas
coisas ( eu ouço os homens
suas línguas atoladas no próprio cu
sentindo o dor das e o fedor das próprias palavras
as ´didéias que lhes correm na cabeçllla
naão irei salve minha alma
serei eu mais que
um monte de palavras que correm pelo
esgoto das almas, quem sabe? quem sabe?
a palavra pede, eu não sou ninguém perto dela (meus dedos correm como osama bin laden nas cavernas obscuras da consciêncaia) e há
consciência!? sei lá eu, sei que a merda corre na ponta da língua, sei que não há tempo para
pensar e que quem pára na vida só pensa no te eeterror no terror
quero queijo asfdoujhasflkjsadhfçsahdf dh ssss kd ci nhnhhh fka djfdue
santiago santio ffffff forma de todod os cumprimento
a lei a lei a lei a lei alei não
fume não cague não ande não faça não viva não ande
eu não quero mais
sentir a dor de quem fica calado e não quero afastar-me
desse silêncio que o poema
é o poema [é
o poema é
esse silência! CORRAM CORRAM AMANHÃ SER´[A O DIA!!!!!!!!!!

4.11.09

Literatura, verdade e morte: a escrita que mastiga a vida e pede ao suicídio que palite os dentes

A loucura, presa à sua malha de silêncios, não escapa pela palavra. Quando a loucura fala, o sentido se esvai: não há lógica nem razão que dê conta dela. Por tantos e tantos anos, a experiência artística da loucura, o que seu silêncio tinha de revelador e de estonteante, calou-se. E assim, engolido por seu silêncio, condenado ao seu não-sentido, a obra de arte sob o signo da loucura se apresenta como completa ausência de obra; lá onde o louco fala, não há obra, não há construção do significado, não há representação, mas apenas murmúrio, ruído, glossolalia.

Triste maldição a da loucura em um mundo que não aceita o silêncio, o não-sentido, a escuridão. Sob a força do iluminismo, tudo deve ser iluminado, tudo deve ser dito, tudo deve aparecer. Até mesmo o sonho que, antes de Freud, ou não dizia nada, ou dizia seu próprio silêncio, agora é posto na mesa de dissecação da hermenêutica. Freud tentou transformar o não-sentido em sentido, e assim levou luz aonde havia sombras. Encruzilhada em que os surrealistas se vêem acampados: Freud nos ensinou que somos sombra, mas também quis iluminar este nosso lado sombrio.

Quanto às potências da linguagem, a literatura moderna dividiu-se em duas linhas que são irmãs gêmeas: a primeira, vontade de verdade, com os surrealistas, os realistas, Poe, os realistas maravilhosos, Ginsberg e Kerrouac; do outro, imersão nas sombras, com Kafka, Burroughs, Sade, Roussel e Mallarmé. Relação entre a morte e a vida, em que a loucura, ao lado do vazio da linguagem, aparece como o já-estar-aí da morte.

A obra de Thompson pode ser interpretada como o espaço em que estas duas linhas se cruzam. Levado por seu ímpeto jornalístico de tudo iluminar, Thompson descobre aos poucos que o caminho do conhecimento é, na verdade, o próprio caminho das trevas. Quanto mais conhecer o real, mais se estranha com ele; quanto mais vai de encontro ao real, mais se vê à beira da fantasia. Um tanto quanto kafkiano. Daí o chavão "Medo e Asco/Repulsa/Ojeriza", que a tradução brasileira transformou perigosamente em "Medo e Delírio". Na verdade, a experiência de Thompson não é a do delírio, mas a do nojo, a do jogar-se ao abismo e perceber que tudo em sua volta lhe é estranho. Trata-se de uma radicalização da tese nietzschiana de que "não é natural à natureza ser conhecida". O mundo que Thompson quer conhecer não é o mundo que aparece com um simples gesto do olhar; é preciso toda uma técnica, toda uma força, toda uma violência para que o mundo possa transformar-se em linguagem; e é essa violência que caracteriza o gonzo, muito mais que uma subjetivização da realidade. De fato, raríssimos são os momentos em que a subjetividade fala mais alto que a violência do mundo. O próprio Thompson, quando descreve o que é o Gonzo Jornalismo, não falará uma palavra sequer sobre subjetividade; seu ponto importante é o da espontaneidade da escrita, da não-representação da realidade mediada pela subjetividade. Trata-se de um total anti-subjetivismo, uma completa e violenta imersão na realidade. É dessa violência que o asco nasce; é desse mundo completamente nu e cru, livre da roupagem do pensamento, que a realidade aparece nas reportagens de Thompson. Nas vezes em que o criador do Gonzo Jornalismo se refere a um jornalismo subjetivo, está muito mais dizendo "é um jornalismo de pura interpretação" do que "é um jornalismo guiado por aquilo que penso". Tanto o é que o mundo de Thompson é estranho a ele mesmo; e o que é o estranhamento, senão essa sensação de que o mundo não lhe pertence, de que a realidade não se adequa àquilo que você é, àquilo que é o seu próprio pensamento?

Assim, é a violência entre aquele que vê e aquilo que é visto o que caracteriza o Gonzo Jornalismo. Daí a necessidade de que a história seja contada a partir de sensações, e não de descrições. Ao modo de Alberto Caeiro, o mundo de Thompson é todo sensação: o mundo que passa pelo corpo, mas não chega ao cérebro; mundo sem espelhamento e sem reflexos; mundo da carne, dos nervos, do sangue e do descontrole. É este mundo que Steadman capta brilhantemente em seus desenhos viscerais. Que toda reportagem de Thompson seja escrita em primeira pessoa não é motivo para classificá-las como subjetivas; porque, ainda que o autor seja a fonte de tudo o que diz, suas palavras voltam-se para ele mesmo como um ser estranho. Ele é muito mais objeto de seu discurso que propriamente sujeito dele.

É esse fazer literário das sensações que, ao contrário do caminho do voyeur, do mero espectador, conduz Thompson à necessidade de transformar-se em seu próprio personagem (oposição impressionismo-expressionismo). Na esteira de Kerouac e de Ginsberg, o Gonzo Jornalismo é uma face radicalizada da vontade de expressão, do trasformar o mundo em linguagem, de tudo dizer, de tudo iluminar, própria de um dos caminhos da experiência literária moderna. Mas enquanto as obras de Kerouac e Ginsberg, mais próximos ao projeto revolucionário surrealista, afundam-se no mundo das sombras com o intuito de iluminá-lo, celebrando então os vagabundos e a linguagem convulsiva, a exeriência de Thompson é a de uma busca frustrada das luzes; ou, melhor ainda, uma constatação de que nossas luzes apenas tornam o mundo mais oculto, mais estranho, mais sem-sentido. Um estranho paradoxo: filho do iluminismo, Thompson é engolido pela escuridão; críticos do iluminismo, os surrealistas alimentam-se de sombras iluminadas.

Ser personagem de sua própria obra, transformar-se em seu próprio objeto de investigação, fazer da sua vida uma narrativa literária: movimentos que caracterizam a literatura, tal como a loucura, como uma maldição sobre aquele que escreve. A loucura, marcada pelo eterno vagar nas sombras, o eterno silêncio das palavras, a total evasão do sentido, o vazio de quem se afunda na solidão da linguagem, constitui aquilo que Foucault viu em Artaud e Roussel e chamou de ausência de obra. Mas, ao mesmo tempo, o desejo de verdade renascido com o realismo conduz a literatura moderna a uma angustia de transformar a própria vida em linguagem, a tudo dizer e tudo comunicar, a transformar tudo o que é real em objeto do fazer literário, constituindo assim uma experiência de presença da obra. Dois lados de uma mesma moeda (a epistemé moderna), a ausência e a presença da obra conduzem o homem que escreve ao mundo das sombras, mas por caminhos diferentes: a primeira, pelo o que o silêncio diz, a outra, pelo o que efetivamente se diz; uma, pelo desmoronamento da linguagem em direção ao seu vazio, a outra, pelo construir incessante do mundo através da linguagem; a ausência, pelo sujeito que se perde na escrita, a presença, pelo sujeito que é estranho a si mesmo e tenta incessantemente se encontrar; a primeira, pela imersão em uma experiência limite, experiência interior, endógena à linguagem, e a outra, pela imersão no que é exterior, no mundo que é o próprio estranhamento, exógeno à linguagem; a ausência, pelo desejo impossível da expressão; a presença, pelo que exige a possibilidade de exprimir-se.

Tanto a ausência quanto a presença da obra são maldições que possuem uma estreita relação com a morte. Mas aquele que é assombrado pela literatura e o mundo de sombras a que ela conduz pode ainda tomar dois caminhos: ou entregar-se à sua própria destruição, como Kerouac e Roussel, ou então celebrar o estranhamento do mundo e aceitar as sombras, tal como Breton e Gisnberg. No caso de Thompson, a presença da obra sobre a vida faz com que o suicídio seja também uma espécie de excorcismo; é como se a literatura, encarnada em sua existência, pudesse enfim desaparecer com o ato da morte. Como poderia ele, velho e acabado, doente e deprimido, ser ainda o mesmo Raoul Douke que sua obra exigia que ele fosse? Não se trata de dizer que a literatura definiu o seu suicídio, ou que Thompson se matou porque não conseguia mais escrever. Não há causalidade entre a literatura e o suicídio. No entanto, é evidente como o declínio de sua vida é simultaneamente o declínio de sua escrita. Tanto o é que seus últimos livros publicados foram suas memórias, escritos que se voltam ao passado, ao contrário de Fear and Loathing in Las Vegas e Hell's Angels e sua ambição de retratar o presente. Até mesmo sua carta de suicídio é lacônica, pontuada, curta e com frases de poucas palavras. Seu último escrito já demandava seu silêncio; sua alma cansada de tudo transformar em palavra agora se via diante do reconfortante silêncio que é a morte. Amaldiçoado pela escrita que exige para si a vida de quem escreve, como um vampiro de palavras a sugar-lhe o sangue da jugular, Thompson matou-se e calou-se com apenas uma bala direto no cérebro enquanto falava com a esposa ao telefone; e se não se matou silenciosamente, na paz que só a ausência da linguagem pode proporcionar, talvez seja mesmo porque a morte serviu para calar este ser estranho que o acompanhava: a escrita, a obra, a literatura.

6.10.09

Todo sofrimento de nossas vidas deve-se à nossa vontade idiota de fugir da morte.

5.10.09

Literatura e linguagem

Wittgenstein:

"Posso saber o que o outro pensa, e não o que eu penso"

"Se um leão pudesse falar, não poderíamos compreendê-lo"

"Uma nuvem inteira de filosofia se condensa numa gotinha de gramática"

"A indizível diversidade de todos os jogos de linguagem cotidianos não nos vêm à consciência porque as roupas de nossa linguagem tornam tudo igual"




1. A partir destas frases, pergunto: em que sentido a linguagem é realmente um meio de nos comunicarmos? E isso, para quem pensa a literatura, é crucial. Até que ponto poderíamos dizer que um texto literário tem mesmo a função de comunicar algo se a linguagem, por si só, parece não ter essa função?

2 Quantas vezes não nos pegamos tentando explicar uma idéia a uma determinada pessoa e falhamos. Isso acontece quando dizemos, como quem não quer nada, "calma, o que eu quero dizer está na ponta da minha língua..." ou então "agora me escapou o que eu queria dizer". Poderíamos aceitar que, na verdade, nos faltam palavras pra explicar aquilo que já sabemos (como naqueles poemas clichês sobre amor ou amizade, aqueles que dizem que "não tenho palavras para dizer o que eu sinto", como se o limite da linguagem perdesse uma estranha batalha contra os limites do que sentimos). Mas é aqui que a coisa complica: será, realmente, que nós sabemos o que queremos dizer e que, no fim das contas, a culpa é da escassez das palavras!? Será que o fato de não encontrarmos palavras para isso que sentimos não é, justamente, uma evidência de que não sabemos absolutamente nada do que estamos falando!? Como ficaria o estatuto da literatura enquanto "forma de expressão" se admitíssemos que não há como separar os limites do conhecer dos limites da linguagem, os limites entre o querer dizer e o dizer efetivamente?

3. O que um louco preso a um manicômio realmente comunica quando escreve uma carta e a esconde debaixo do travesseiro, para que nunca mais seja lida? O que uma garota de 15 anos comunica quando escreve uma carta de amor que, por vergonha, nunca chegará nas mãos da pessoa amada? (Kafka não precisou ser louco para pedir que queimassem seus escritos - e, ao mesmo tempo, não foi louco o suficiente para ter coragem de queimá-los ele mesmo).

4. Quando tenho medo de sair na rua, é porque não sei o que irá acontecer na rua, ou é porque sei que não posso saber o que irá acontecer na rua? Até que ponto "esclarecer" não é uma experiência das "trevas"? Posso ter medo de algo que não sei o que é, de algo que desconheço?

5. Chego ao balcão de um boteco, bato a mesa com força e grito ao atendente a seguinte palavra: "condoleridadinho". Ele me pergunta o que eu quis dizer. Respondo que quis dizer "me sirva a pior vodka da casa". Ele me pergunta "você é louco?" e eu penso "acabaram de me chamar de louco porque disse algo que não foi compreendido... foi o desnível entre o 'querer dizer' e o 'ter dito' que me fez parecer um completo idiota".

6. Seria a loucura um problema de expressão, de falta de comunicação? Pois, se for, somos todos loucos - sem excessão. (Se um leão aprendesse a falar, ele seria louco).

7. Machado de Assis escreveu "O Alienista" no século XIX. Hoje, no século XXI, existem centenas de artigos discorrendo sobre o que esse conto diz, sobre qual é o "sentido" do texto. A maioria destas interpretações discordam entre si. Pergunto: à luz do conjunto de interpretações da crítica atual, tenho mais ou menos dúvidas sobre o sentido desta novela do que se eu a lesse em 1890?

8. Quando digo "aquele crítico não leu meu texto literário corretamente", é porque faltou cérebro ou sobrou petulância? (E você pode perguntar "você se refere ao cérebro do autor, ou ao do crítico?"). Talvez a resposta a essas perguntas não esteja necessariamente na busca do que o texto quer dizer, mas em sua forma de não fazê-lo. Mas como?

9. Seria a minha linguagem menos estranha a mim do que é àquele que me lê? O que significa "dominar a linguagem" quando se trata de escrever?

10. Quando um discurso religioso qualquer fala a respeito de "fé", de "crer no impossível" ou que "a experiência religiosa é uma experiência mística, de mistérios", o "mistério" aí não é tido enquanto "certeza"? Em outras palavras: rezo por que sei, ou rezo por que não sei?

10.1. "A experiência mística é uma experiência fora da linguagem". Mas como, se a palavra "mística" designa justamente esta experiência?

11. Admitir o mistério é neutralizar toda a novidade do mundo.

12. Quanto mais a linguagem se expande, maior o vazio que ela deixa para trás. Conhecer não é, ao modo de Husserl, "acumular camadas", mas sim cavar um buraco.

13. Aceito que "o átomo é uma partícula indivizível" e, anos mais tarde, descubro a existência dos protons e elétrons. O ato de conhecer, neste caso, coloca em dúvida a própria possibilidade do conhecer. Ou melhor: transforma a certeza em uma infinidade de novas dúvidas.

14. De agora em diante, para compreender a química, devo compreender que o átomo não existe enquanto partícula indivisível. Tudo mudou. A descoberta demanda-me mais conhecimento. (O espírito absoluto de Hegel seria então a dúvida original?)

15. Quanto mais sei, mais duvido.

16. Quando dizem que o conhecimento nasce de uma pergunta, já estamos dizendo aí que, na verdade, conhecer é comunicar.

17. Do que o louco duvida quando escreve? Posso saber o que ele pensa pela linguagem? Por que os escritos de Artaud são menos compreensíveis que Machado de Assis em "O Alienista"?

18. "A literatura comunica o incomunicável" e "A loucura comunica o incomunicável" são duas frases lamentáveis. (São frases que admitem a semiótica, mas negam a possibilidade do signo). Por que a firmar que algo incomunicável pode comunicar algo? Por que não admitir justamente a não-comunicação da loucura?

19. Freud produziu o surrealismo, mas não pensou no surrealismo. Isso quer dizer que "Breton leu a psicanálise pelo seu vazio"?. Mas que vazio? Breton fala a partir daquilo que Freud não admitia. "A psicanálise tinha o surrealismo dentro de si, esperando por Breton". Breton seria então um oportunista do vazio. "E quem não é?". (Não consigo responder a essas perguntas).

20. Entre a filosofia e a ciência, há uma diferença: só à primeira não cabe aceitar as dúvidas. Os cientistas comem dúvidas como americanos obesos comem hamburgueres.

21. "O admirável da arte é que posso interpretá-la da forma como eu quiser, subjetivamente". E o que há de subjetivo nessa ausência de comunicação!? Por que você precisa da arte, se pode interpretá-la como bem entende? Não seria melhor pensar naquilo que você bem entende sem se defrontar com a obra de arte?

21.1 A arte não se justifica pelas interpretações, nem pelo que quer comunicar; a arte é sempre violência contra aquele que pensa. (Ajustar o querer-dizer do escritor com o querer-ler do leitor é fugir de qualquer tipo de estranhamento. E, ao mesmo tempo, a arte caminha cada vez mais ao seu desejo de estranhar-se).

22. "Thompson faz jornalismo subjetivo". E o que isso quer dizer? Que eu poderia ler a mente de Thompson através de suas palavras? E porque posso ler a dele, e não a do louco? Que privilégio existe em fazer jornalismo e literatura? A função de comunicar?

23. "Uma fotografia é mais arbitrária e objetiva que a palavra escrita, porque a imagem impõe o seu sentido, bloqueia a imaginação, enquanto a palavra é aberta para inúmeros sentidos subjetivos". A imagem, sob essa perspectiva, comunicaria a si mesma, enquanto a linguagem comunicaria sua ausência. Desafio-te: imagine uma cor que você nunca viu antes! Só posso formular tal questão porque as palavras arbitram que existem cores desconhecidas. Por outro lado, se você visse tal cor, poderia pensar "nossa, uma cor nunca antes vista! quantas cores que eu não conheço não devem existir nesse mundo!!!".

24. A linguagem funciona entre o vazio de seu significado e a certeza de seu significante. É por isso que o significante e o significado, em si mesmos, nada tem de importante para os problemas da linguagem.

25. "Não penso fora da linguagem" também quer dizer "não deconheço fora do conhecimento".

26. Se minha linguagem é estranha a mim mesmo e, simultaneamente, não penso fora da minha linguagem, resta-nos a questão: como é possível comunicarmo-nos, se não há nada que garanta que o que dizemos vá de encontro ao que queremos dizer?

27. A literatura é o conflito entre o possível e o impossível da linguagem: o desconhecido que conhecemos, e o conhecimento que desconhecemos.

28. A loucura é a consciência deste vazio essencial à linguagem. Daí, também, ela existir tanto em forma de silêncio quanto em forma de morte.

29. Tese de Freud: "O sonho tem uma lógica que não é a lógica de nossa linguagem, mas uma lógica própria". O trabalho do psicanalista seria o de traduzir aquela linguagem para a nossa, aquela lógica para a minha lógica. Mas em que sentido a minha linguagem me é lógica a todo momento? Não posso, às vezes, estranhar-me com o que eu mesmo digo?

30. Se nossa linguagem não nos fosse estranha, que sentido haveria em pensá-la filosoficamente? (Para que Peirce e Saussure?)

31. Transformar nossa linguagem em estranhamento é, também, um produto de nossa linguagem.

31. A força do pensamento anti-filosófico de Wittgenstein é justamente o de neutralizar a dúvida pela afirmação da impossibilidade do conhecer o sentido exato. Mas Caeiro já o tinha feito quando falou do "não-pensar", e da "eterna inocência". (Por que Caeiro é um frustrado, e Wittgenstein é o maior filósofo de nossos tempos, se ambos mataram a filosofia ao admitirem a insuficiência da linguagem?)

3.10.09

Sobre a loucura em seu sentido banal

Lembrei-me hoje de um poema que escrevi há uns dois anos atrás, logo depois que acordei com uma ressaca física e moral. Foi no auge de um tempo em que eu achava que ia pirar, que eu ia acordar no outro dia sem conseguir levantar da cama e ia esperar alguém do manicômio vir me buscar enquanto minha mãe chorava ao fundo abraçada no ombro do meu pai que olhava pra mim com aquele olhar de nojo e reprovação pensando em quanto dinheiro ele ia gastar pra manter o filho esquizofrênico pelo resto da vida preso no hospício como um peso inútil para a vida da família. Eu realmente achei que daquele dia não passava, que se houvesse um limite para a razão dos homens, eu estava exatamente ali, surfando sobre aquela linha tênue. Tudo aquilo porque, um dia antes, fiquei bêbado de cair no chão - e realmente caí, numa poça de lama de cerveja, no meio de umas 4 mil pessoas que batiam seus pés furiosos na terra e dançavam como se fossem elefantes numa arena de rodeio. E, pensando sobre todo esse papo de transgressão, drogas, hippies, Geração Beat, literatura e porraloquice, me dei conta de que, ao contrário de Kerouac e Ginsberg, eu nunca me orgulhei de ter passado por uma situação dessas.

Hoje, relendo aquele poema, vi que eu não queria tombar pro outro lado da lua, que eu nunca me orgulhei daquilo, que eu não achava que cruzar a linha da sanidade poderia fazer minha mente expandir, ou algo que o valha. Aquela vontade incontrolável que eu tive de escrever um longo poema de 3 páginas sobre a loucura foi um canto de horror, de medo, de estranhamento. O mais engraçado é que, enquanto meus amigos me olhavam com nojo naquela posição deplorável , pensando que aquilo tudo não passava de fingimento, de frescura, etc. e etc. (disseram-me, naquele dia, que eu fazia aquilo para chamar a atenção, e que por isso deveriam me deixar sozinho........ como se o louco, preso ao silêncio do manicômio, fosse um espetáculo maior que o palhaço que clama pela atenção do público do circo), um outro amigo nosso era venerado porque tinha se jogado bêbado de cima do palco e quase quebrado o braço num momento de êxtase de alegria. "Meu, cê é louco, cê é pirado!", as pessoas riam em volta dele. Não sei porquê, mas a idéia de transgressão, no senso comum, está muito mais ligada a essa "loucura" risonha, a esse lado cômico da "loucura", do que da experiência trágica de horror e desespero, do já-estar-aí da morte. Não há espaço para a dor em nossos tempos. É mais fácil acreditar na felicidade entorpecida do que nos desesperos incontroláveis. E é por isso que, a meu ver, as sombras que rodeiam a obra e a vida de William Burroughs não tem absolutamente nada a ver com a felicidade colorida dos hippies e da contracultura. E, em certo sentido, creio que eu possa dizer o mesmo de Thompson. Quem lê em Thompson um ícone da contracultura, um palhaço drogado fazendo arroaças divertidas, um irônico que transforma desgraça em riso (porque, afinal, é só o riso que importa), está lendo o lado mais "Mtv" de Thompson. O que me intriga em sua escrita é justamente o avesso disso, a experiência das trevas, da insanidade que o circunda e que o obriga a escrever mesmo que ele não queira, a escrita que é uma maldição.

Existem pessoas que ficam a vida toda em busca do poema perfeito, construindo sua literatura tijolo por tijolo, pensando em cada palavra e em cada som que está dentro do poema, tentando aperfeiçoá-lo cada vez mais para que ele posssa, enfim, transformar-se em um jogo semiótico que, sob a superície árida dos signos, esconde nada mais que os caprichos arquitetônicos de um Arnaldo Antunes. Esses acham que é o escritor quem deve perseguir a literatura, que o poeta é uma espécie de caçador que deve enjaular as palavras e colocá-las no zoológico para que as crianças batam palmas. Mas eu aprendi naquele dia justamente o contrário, que é a literatura que te persegue, não mais que de repente, nos momentos mais estranhos e bizarros da sua vida. Quando acordei com ressaca, não senti vontade de comer, nem de beber água... só senti uma vontade incontrolável de escrever aquele poema, aqueles "7 passos para se produzir uma loucura", que apareceram na tela do computador muito antes de eu pensar em como eles seriam. No momento de desespero, em que você realmente acha que é o último segundo da tua vida, não resta muito tempo para pensar. Hoje, vejo que aquele poema é uma parte do meu lado Burroughs, meu lado Thompson, meu lado trevas que transbordou naquela manhã de domingo. É quando a literatura te força a escrever em vez de você se forçar a fazer literatura. Uma espécie de maldição que acompanha aqueles que, em algum momento da vida, se vêem em cima do frágil muro que separa a loucura da razão e os palhaços dos homens sujos.



E agora, com a tranquilidade que só a monotonia pode proporcionar, eu posso dizer que o único orgulho que tive dessa experiência toda foi o de ter sentido o sincero desespero de quem nunca quis estar ali naquele momento.

23.9.09

as frestas da casa

Sinto falta daquela tua
velha ausência, ainda que
hoje ela seja
a única
coisa que
me reste.

Me sinto pequeno
sobre a imensidão
da minha
cama (tão triste ela
sem o lençol
vazando pelas
beiradas).

Às vezes acordo com saudade
daquela dor nas costas
de sextas-feiras,
de que eu tanto
reclamava.

Quando me cubro para dormir
nos fins de semana,
a tua ausência me raspa
a nuca com unhas
longas - e eu me
arrepio, um frio
na espinha
que vai direto
ao núcleo
da carne.

O vazio preenche
as frestras
de casa, (o vento
gelado passa por ela,
como um intruso).

Ontem coloquei o banquinho
encostado na porta da cozinha
com uma revista por cima
enquanto eu picava
cebolas. Tentei não chorar,
mas as cebolas foderam
com tudo...

16.9.09

Eu me sinto vazio como um
pote de torresmos conservados
na própria gordura, e triste como
o homem que corre
no meio do
canavial enquanto
seu coração
arde em chamas
entre a cinza e o açúcar
do seu passado.

Talvez seja isso mesmo,
o café e o silêncio
como uma
lembrança
incontrolável.

Um vento passou pela minha janela.

Seria o mesmo daquele dia?

14.9.09

Que tolo seria eu
se pedisse ao amor que estivesse
num poema ou numa
música ou num filme ou
numa fotografia
publicada em jornal,
para que todos o vissem fora
de suas próprias vidas; nenhum
artista, enquanto artista, poderá
dizer "eu te amo"
sem estar mentindo.

E é por isso que
talvez esse poema
,essa vontade incontrolável que eu tenho de pensar no amor e descrevê-lo em palavras,
não seja nada mais que
a prova de que
eu não sei amar,
de que eu nunca o soube,
e que talvez eu seja mesmo esse pedaço de carne indiferente
ao mistério das coisas,
esse ser estranho que esqueceu o que é o amor
no mesmo dia em que esqueceu o que é o
sorriso feliz da ignorância
de quem quer escrever
um poema de amor
mas não sabe como.

7.9.09

Sobre as unhas sujas

Estou sentado no velho apartamento
com um prato de
cenouras e beterrabas
na mão, e vejo nelas
a fúria que talvez
nem Tison teve ao
morder aquela
orelha (elas nascem presas
à terra, como os homens).

O alecrim é um tempero imóvel
e madeiroso, como
algumas vidas
comuns; como a vida
de meu pai, do feirante
e do pasteleiro, dos viajantes
de menos de 2 Km, e dos
jardineiros que não
tiram férias (as raízes
daquelas rosas o prendem
ao chão).

Poderia pegar o próximo avião
para a China, e sentar em frente
à muralha, esperando
por um segundo de paz. Mas quão
estúpido eu seria se buscasse
a minha paz em um muro
distante. Poderia
ir a Machu Picchu esperar
que os espíritos de lá
me dissessem o que fazer da vida,
(como se os espíritos daqui
não pudessem fazê-lo)
ou iria à Amazônia
tomar um porre de yage, esperando
a salvação enquanto os mosquitos
me mordem; mas quão estúpido
é sair de casa como
se a vida não estivesse
aqui, e eu, fora dela,
precisasse encontrá-la.

Eu poderia ficar dias sem tomar
banho correndo pelas
estradas da América e tentar
ser o novo Kerouac... mas
que espécie de ser perqueno
seria eu, se precisasse
fugir do mundo
para fazê-lo surgir?

(Quando Cabral viajou em caravelas,
não foi pra encontrar o novo mundo,
mas para levar o mundo velho para terras
que não eram suas).

Minhas unhas me prendem
à terra, e debaixo
delas uma
fúria se esconde: eu não
estou preso ao mundo,
mas é o mundo
que está preso em mim.

31.8.09

Oito dias são oito dias,
nem um segundo a mais
nem um segundo a menos.

A vida é frágil,
às vezes é feita de carne,
às vezes é feita de tempo.

O homem é um bicho selvagem
que escreve poemas
como quem caça papagaios
(eles repetem palavras
sem sentido, como os homens).

Eu tenho em mim uma calma estranha.

Os dias passam, a carne apodrece,
os câes latem e os papagaios
cantam canções
de ninar.

Quando durmo, sou um poeta,
e tenho todos os mistérios
do mundo sob a máscara de
um sonho estranho.

Mas quando acordo,
a vida me morde a jugular
e eu chuto palavras
nela, como se fossem
pedregulhos.

19.8.09

Olhando, olhando,
de olhos abertos,
o surto de medo,
a epistemologia:

o mundo me
engoliu com suas
sombras: conhecer
é esquecer
o mundo.

Da luz, fica o ócio: cantemos
como tolos, e de nossos
filhos molhados de barro
criemos escravos.

8.8.09

Morram, indies!

As coisas são belas não porque possuem alguma coisa que as tornem especiais. As coisas são belas porque existem. Da dor mais visceral ao prazer mais sublime, as coisas são belas porque existem, porque são fruto de um acaso que as tornam únicas. Frente a todas as possibilidades do mundo, aquela música do Michael Jackson possui justamente aquele ritmo, nem mais rápido, nem mais lento, e também aquela história de Kafka, em que o homem é um inseto, em que o inseto somos nós, cada palavra esta ali e nada pode mudar isso, nada pode mudar o futuro de Gregor Samsa. As coisas são belas porque existem, porque aconteceram, e o filme do Adam Sandler não é uma exceção. Não olho para um quadro e me pergunto que sopro de genialidade pode ter dado origem a uma determinada música ou quadro ou livro ou notícia de jornal... eu simplesmente olho com olhos atentos, ouço com ouvidos de raposa, percebo que no mundo há muitas coisas, mas que cada coisa é ela só, ela mesma, que é rara em sua maneira de ser redundante. Adam Sandler não é um gênio, mas faz coisas que existem. Isso é suficiente para chorar em "Click" e sua história nietzschiana. Não é Nietzsche que a torna bela. Ela é bela porque existe. Por isso me sinto feliz ao olhar ao redor do mundo e ver as coisas simples, por isso aproveito-as uma a uma, por isso sinto o cheiro do orégano e do tomilho e sei que só eles possuem aquele cheiro, ainda que possuam a mesma cor. O tomilho é belo, sem ser genial; a vida é bela, sem ser obra de arte.

2.8.09

O mundo todo é uma caixa.

O mundo todo é uma caixa;

Não há nesse mundo quadrado filósofo ou professor engomadinho que me convensa de que o mundo é uma caixa com oito pontas afiadas e o peso de mil sóis e o gelo de doze mil plutões sob o peso da ausência dos ventos.

Quando um dia te disserem que os planetas mudaram de nome, e que os sóis eram azuis e que a vida era azul e que nas nuvez haviam desenhos, saia correndo, como quem corre de plantas carnívoras, e morda seu próprio braço, coloqueo para assar em alumínio e refoque seus dentes com cebolas para fazer um molho de sangue e corpo sem cristo. Bata tudo no liquidificador e acorde de manhã com os olhos vermelhos e diga para o espelho: por que tem uma unha no meu olho?

18.7.09

Quando fugir é necessário

Às quatro da madrugada estou sentado frente a uma folha de papel em branco chamada "computador" que me olha e não reconhece meus limites. Ela quer que eu escreva, e escreva, e diga aquelas coisas todas que dentro de mim se encontram esquecidas e querem morrer, como o corpo e a vida dos homens. Eu digo, e digo, e contorno a situação com um sonho estranho - hoje havia uma mesa coberta de massas com ervas finas, e eu pensei (por dentro, pois no sonho há muitas vozes, não só a dos outros, mas também a sua): por que raios não largo tudo isso de epistemologia homossexual e me dedico à arte de criar alimentos que se aproximem da arte. E vejo que com uma faca e uma cenoura na mão, às vezes, sou mais feliz do que com todos os livros do mundo, e penso que talvez felicidade não seja suficiente para ter uma vida completa. Talvez seja preciso mais, seja preciso sofrer, seja preciso levar uma facada pelas costas, seja preciso trair as pessoas, trair os amigos, trair a si mesmo, dizer "saia, saiam, voem", dirigir-se ao mundo das sombras carregando um pão com queijo, um pão na chapa, um pão com vozes, e dele extrair um poema de dor, um poema de sofrimento. Talvez seja preciso tudo isso para se sentir realmente pleno, sentir-se bem, ainda que não feliz. Felicidade é uma grande besteira! Quem a quer, esquece de viver. A vida é sofrer, a vida é correr todo dia de manhã pela rua e aturar os farpos de madeira que te penetram o dedão do pé, os dentes podres que empurram tua gengiva para o inferno, a boca do dragão a sussurrar em teu ouvido. É preciso morrer para dar valor à vida; é preciso perder; é preciso, é preciso; é preciso.

Dormir acordado é estar feliz, é estar feliz, é olhar para o céu e ver a felicidade, é esperar que a morte não venha, é correr das sombras quando elas surgirem às 7 da tarde, é olhar para o seu pai bêbado e sentir vontade de pular das pontes, é nadar em sentido ao centro da terra, é uma guerra, é o amor que te faz sangrar o nariz e te usurpar o muco.

Quero correr, quero fugir não da vida, mas da felicidade, quero ir de encontro à fuga, não fugir do mundo, mas fazê-lo fugir, como se estoura um cano, como se estoura uma veia, como se faz saltar o sangue dos olhos, como se tua visão estourasse os limites do horizonte - como se o horizonte te custasse o esforço de teu sangue a estourar os vasos - a estourar os canos - a estourar-se: morrer um pouco.

Amigos, tive muitos, e todos morreram, nenhum me sobrou. A vida os levou - a morte os levou - a felicidade os levou. A todos, deixo apenas um pedido de desculpas, por não tê-los suportado, por não ter-lhes dado mais amor, por não me importar com eles o tanto que eles se importaram comigo (e que amigo realmente se importa com o outro!?). Eu quero aqui me desculpar, dizer que tudo aquilo foi em vão, que anos e anos se passam e nada mais fica que a certeza de que era preciso morrer, era preciso deixar fugir as pessoas, fugir das pessoas, fazê-los andar sobre passos estranhos, mundos estranhos, mundo onde não mais o amigo está, mundo onde não mais estou, mundo estranho - já não o mesmo mundo, já não o mesmo sabor de pastel em frente à minha casa, já não o mesmo sabor do álcool que ela saboreou naquela noite, não mais o calor do teu pau a penetrando, não mais o olho do teu novo namorado com o mesmo impulso, não mais a vida, não mais a mesma vida, a vida toda mudou. Ela não é real, não posso fazê-la real, não posso fazê-la real, não posso fazê-la andar, não posso fazê-la esperar e sangrar, não posso esperar. A morte está por toda a parte. Fico feliz que você tenha partido, fico feliz... eu sei que você não precisava de mim. Estar ausente é o meu melhor presente que dou a você, agora.