4.11.09

Literatura, verdade e morte: a escrita que mastiga a vida e pede ao suicídio que palite os dentes

A loucura, presa à sua malha de silêncios, não escapa pela palavra. Quando a loucura fala, o sentido se esvai: não há lógica nem razão que dê conta dela. Por tantos e tantos anos, a experiência artística da loucura, o que seu silêncio tinha de revelador e de estonteante, calou-se. E assim, engolido por seu silêncio, condenado ao seu não-sentido, a obra de arte sob o signo da loucura se apresenta como completa ausência de obra; lá onde o louco fala, não há obra, não há construção do significado, não há representação, mas apenas murmúrio, ruído, glossolalia.

Triste maldição a da loucura em um mundo que não aceita o silêncio, o não-sentido, a escuridão. Sob a força do iluminismo, tudo deve ser iluminado, tudo deve ser dito, tudo deve aparecer. Até mesmo o sonho que, antes de Freud, ou não dizia nada, ou dizia seu próprio silêncio, agora é posto na mesa de dissecação da hermenêutica. Freud tentou transformar o não-sentido em sentido, e assim levou luz aonde havia sombras. Encruzilhada em que os surrealistas se vêem acampados: Freud nos ensinou que somos sombra, mas também quis iluminar este nosso lado sombrio.

Quanto às potências da linguagem, a literatura moderna dividiu-se em duas linhas que são irmãs gêmeas: a primeira, vontade de verdade, com os surrealistas, os realistas, Poe, os realistas maravilhosos, Ginsberg e Kerrouac; do outro, imersão nas sombras, com Kafka, Burroughs, Sade, Roussel e Mallarmé. Relação entre a morte e a vida, em que a loucura, ao lado do vazio da linguagem, aparece como o já-estar-aí da morte.

A obra de Thompson pode ser interpretada como o espaço em que estas duas linhas se cruzam. Levado por seu ímpeto jornalístico de tudo iluminar, Thompson descobre aos poucos que o caminho do conhecimento é, na verdade, o próprio caminho das trevas. Quanto mais conhecer o real, mais se estranha com ele; quanto mais vai de encontro ao real, mais se vê à beira da fantasia. Um tanto quanto kafkiano. Daí o chavão "Medo e Asco/Repulsa/Ojeriza", que a tradução brasileira transformou perigosamente em "Medo e Delírio". Na verdade, a experiência de Thompson não é a do delírio, mas a do nojo, a do jogar-se ao abismo e perceber que tudo em sua volta lhe é estranho. Trata-se de uma radicalização da tese nietzschiana de que "não é natural à natureza ser conhecida". O mundo que Thompson quer conhecer não é o mundo que aparece com um simples gesto do olhar; é preciso toda uma técnica, toda uma força, toda uma violência para que o mundo possa transformar-se em linguagem; e é essa violência que caracteriza o gonzo, muito mais que uma subjetivização da realidade. De fato, raríssimos são os momentos em que a subjetividade fala mais alto que a violência do mundo. O próprio Thompson, quando descreve o que é o Gonzo Jornalismo, não falará uma palavra sequer sobre subjetividade; seu ponto importante é o da espontaneidade da escrita, da não-representação da realidade mediada pela subjetividade. Trata-se de um total anti-subjetivismo, uma completa e violenta imersão na realidade. É dessa violência que o asco nasce; é desse mundo completamente nu e cru, livre da roupagem do pensamento, que a realidade aparece nas reportagens de Thompson. Nas vezes em que o criador do Gonzo Jornalismo se refere a um jornalismo subjetivo, está muito mais dizendo "é um jornalismo de pura interpretação" do que "é um jornalismo guiado por aquilo que penso". Tanto o é que o mundo de Thompson é estranho a ele mesmo; e o que é o estranhamento, senão essa sensação de que o mundo não lhe pertence, de que a realidade não se adequa àquilo que você é, àquilo que é o seu próprio pensamento?

Assim, é a violência entre aquele que vê e aquilo que é visto o que caracteriza o Gonzo Jornalismo. Daí a necessidade de que a história seja contada a partir de sensações, e não de descrições. Ao modo de Alberto Caeiro, o mundo de Thompson é todo sensação: o mundo que passa pelo corpo, mas não chega ao cérebro; mundo sem espelhamento e sem reflexos; mundo da carne, dos nervos, do sangue e do descontrole. É este mundo que Steadman capta brilhantemente em seus desenhos viscerais. Que toda reportagem de Thompson seja escrita em primeira pessoa não é motivo para classificá-las como subjetivas; porque, ainda que o autor seja a fonte de tudo o que diz, suas palavras voltam-se para ele mesmo como um ser estranho. Ele é muito mais objeto de seu discurso que propriamente sujeito dele.

É esse fazer literário das sensações que, ao contrário do caminho do voyeur, do mero espectador, conduz Thompson à necessidade de transformar-se em seu próprio personagem (oposição impressionismo-expressionismo). Na esteira de Kerouac e de Ginsberg, o Gonzo Jornalismo é uma face radicalizada da vontade de expressão, do trasformar o mundo em linguagem, de tudo dizer, de tudo iluminar, própria de um dos caminhos da experiência literária moderna. Mas enquanto as obras de Kerouac e Ginsberg, mais próximos ao projeto revolucionário surrealista, afundam-se no mundo das sombras com o intuito de iluminá-lo, celebrando então os vagabundos e a linguagem convulsiva, a exeriência de Thompson é a de uma busca frustrada das luzes; ou, melhor ainda, uma constatação de que nossas luzes apenas tornam o mundo mais oculto, mais estranho, mais sem-sentido. Um estranho paradoxo: filho do iluminismo, Thompson é engolido pela escuridão; críticos do iluminismo, os surrealistas alimentam-se de sombras iluminadas.

Ser personagem de sua própria obra, transformar-se em seu próprio objeto de investigação, fazer da sua vida uma narrativa literária: movimentos que caracterizam a literatura, tal como a loucura, como uma maldição sobre aquele que escreve. A loucura, marcada pelo eterno vagar nas sombras, o eterno silêncio das palavras, a total evasão do sentido, o vazio de quem se afunda na solidão da linguagem, constitui aquilo que Foucault viu em Artaud e Roussel e chamou de ausência de obra. Mas, ao mesmo tempo, o desejo de verdade renascido com o realismo conduz a literatura moderna a uma angustia de transformar a própria vida em linguagem, a tudo dizer e tudo comunicar, a transformar tudo o que é real em objeto do fazer literário, constituindo assim uma experiência de presença da obra. Dois lados de uma mesma moeda (a epistemé moderna), a ausência e a presença da obra conduzem o homem que escreve ao mundo das sombras, mas por caminhos diferentes: a primeira, pelo o que o silêncio diz, a outra, pelo o que efetivamente se diz; uma, pelo desmoronamento da linguagem em direção ao seu vazio, a outra, pelo construir incessante do mundo através da linguagem; a ausência, pelo sujeito que se perde na escrita, a presença, pelo sujeito que é estranho a si mesmo e tenta incessantemente se encontrar; a primeira, pela imersão em uma experiência limite, experiência interior, endógena à linguagem, e a outra, pela imersão no que é exterior, no mundo que é o próprio estranhamento, exógeno à linguagem; a ausência, pelo desejo impossível da expressão; a presença, pelo que exige a possibilidade de exprimir-se.

Tanto a ausência quanto a presença da obra são maldições que possuem uma estreita relação com a morte. Mas aquele que é assombrado pela literatura e o mundo de sombras a que ela conduz pode ainda tomar dois caminhos: ou entregar-se à sua própria destruição, como Kerouac e Roussel, ou então celebrar o estranhamento do mundo e aceitar as sombras, tal como Breton e Gisnberg. No caso de Thompson, a presença da obra sobre a vida faz com que o suicídio seja também uma espécie de excorcismo; é como se a literatura, encarnada em sua existência, pudesse enfim desaparecer com o ato da morte. Como poderia ele, velho e acabado, doente e deprimido, ser ainda o mesmo Raoul Douke que sua obra exigia que ele fosse? Não se trata de dizer que a literatura definiu o seu suicídio, ou que Thompson se matou porque não conseguia mais escrever. Não há causalidade entre a literatura e o suicídio. No entanto, é evidente como o declínio de sua vida é simultaneamente o declínio de sua escrita. Tanto o é que seus últimos livros publicados foram suas memórias, escritos que se voltam ao passado, ao contrário de Fear and Loathing in Las Vegas e Hell's Angels e sua ambição de retratar o presente. Até mesmo sua carta de suicídio é lacônica, pontuada, curta e com frases de poucas palavras. Seu último escrito já demandava seu silêncio; sua alma cansada de tudo transformar em palavra agora se via diante do reconfortante silêncio que é a morte. Amaldiçoado pela escrita que exige para si a vida de quem escreve, como um vampiro de palavras a sugar-lhe o sangue da jugular, Thompson matou-se e calou-se com apenas uma bala direto no cérebro enquanto falava com a esposa ao telefone; e se não se matou silenciosamente, na paz que só a ausência da linguagem pode proporcionar, talvez seja mesmo porque a morte serviu para calar este ser estranho que o acompanhava: a escrita, a obra, a literatura.

6.10.09

Todo sofrimento de nossas vidas deve-se à nossa vontade idiota de fugir da morte.

5.10.09

Literatura e linguagem

Wittgenstein:

"Posso saber o que o outro pensa, e não o que eu penso"

"Se um leão pudesse falar, não poderíamos compreendê-lo"

"Uma nuvem inteira de filosofia se condensa numa gotinha de gramática"

"A indizível diversidade de todos os jogos de linguagem cotidianos não nos vêm à consciência porque as roupas de nossa linguagem tornam tudo igual"




1. A partir destas frases, pergunto: em que sentido a linguagem é realmente um meio de nos comunicarmos? E isso, para quem pensa a literatura, é crucial. Até que ponto poderíamos dizer que um texto literário tem mesmo a função de comunicar algo se a linguagem, por si só, parece não ter essa função?

2 Quantas vezes não nos pegamos tentando explicar uma idéia a uma determinada pessoa e falhamos. Isso acontece quando dizemos, como quem não quer nada, "calma, o que eu quero dizer está na ponta da minha língua..." ou então "agora me escapou o que eu queria dizer". Poderíamos aceitar que, na verdade, nos faltam palavras pra explicar aquilo que já sabemos (como naqueles poemas clichês sobre amor ou amizade, aqueles que dizem que "não tenho palavras para dizer o que eu sinto", como se o limite da linguagem perdesse uma estranha batalha contra os limites do que sentimos). Mas é aqui que a coisa complica: será, realmente, que nós sabemos o que queremos dizer e que, no fim das contas, a culpa é da escassez das palavras!? Será que o fato de não encontrarmos palavras para isso que sentimos não é, justamente, uma evidência de que não sabemos absolutamente nada do que estamos falando!? Como ficaria o estatuto da literatura enquanto "forma de expressão" se admitíssemos que não há como separar os limites do conhecer dos limites da linguagem, os limites entre o querer dizer e o dizer efetivamente?

3. O que um louco preso a um manicômio realmente comunica quando escreve uma carta e a esconde debaixo do travesseiro, para que nunca mais seja lida? O que uma garota de 15 anos comunica quando escreve uma carta de amor que, por vergonha, nunca chegará nas mãos da pessoa amada? (Kafka não precisou ser louco para pedir que queimassem seus escritos - e, ao mesmo tempo, não foi louco o suficiente para ter coragem de queimá-los ele mesmo).

4. Quando tenho medo de sair na rua, é porque não sei o que irá acontecer na rua, ou é porque sei que não posso saber o que irá acontecer na rua? Até que ponto "esclarecer" não é uma experiência das "trevas"? Posso ter medo de algo que não sei o que é, de algo que desconheço?

5. Chego ao balcão de um boteco, bato a mesa com força e grito ao atendente a seguinte palavra: "condoleridadinho". Ele me pergunta o que eu quis dizer. Respondo que quis dizer "me sirva a pior vodka da casa". Ele me pergunta "você é louco?" e eu penso "acabaram de me chamar de louco porque disse algo que não foi compreendido... foi o desnível entre o 'querer dizer' e o 'ter dito' que me fez parecer um completo idiota".

6. Seria a loucura um problema de expressão, de falta de comunicação? Pois, se for, somos todos loucos - sem excessão. (Se um leão aprendesse a falar, ele seria louco).

7. Machado de Assis escreveu "O Alienista" no século XIX. Hoje, no século XXI, existem centenas de artigos discorrendo sobre o que esse conto diz, sobre qual é o "sentido" do texto. A maioria destas interpretações discordam entre si. Pergunto: à luz do conjunto de interpretações da crítica atual, tenho mais ou menos dúvidas sobre o sentido desta novela do que se eu a lesse em 1890?

8. Quando digo "aquele crítico não leu meu texto literário corretamente", é porque faltou cérebro ou sobrou petulância? (E você pode perguntar "você se refere ao cérebro do autor, ou ao do crítico?"). Talvez a resposta a essas perguntas não esteja necessariamente na busca do que o texto quer dizer, mas em sua forma de não fazê-lo. Mas como?

9. Seria a minha linguagem menos estranha a mim do que é àquele que me lê? O que significa "dominar a linguagem" quando se trata de escrever?

10. Quando um discurso religioso qualquer fala a respeito de "fé", de "crer no impossível" ou que "a experiência religiosa é uma experiência mística, de mistérios", o "mistério" aí não é tido enquanto "certeza"? Em outras palavras: rezo por que sei, ou rezo por que não sei?

10.1. "A experiência mística é uma experiência fora da linguagem". Mas como, se a palavra "mística" designa justamente esta experiência?

11. Admitir o mistério é neutralizar toda a novidade do mundo.

12. Quanto mais a linguagem se expande, maior o vazio que ela deixa para trás. Conhecer não é, ao modo de Husserl, "acumular camadas", mas sim cavar um buraco.

13. Aceito que "o átomo é uma partícula indivizível" e, anos mais tarde, descubro a existência dos protons e elétrons. O ato de conhecer, neste caso, coloca em dúvida a própria possibilidade do conhecer. Ou melhor: transforma a certeza em uma infinidade de novas dúvidas.

14. De agora em diante, para compreender a química, devo compreender que o átomo não existe enquanto partícula indivisível. Tudo mudou. A descoberta demanda-me mais conhecimento. (O espírito absoluto de Hegel seria então a dúvida original?)

15. Quanto mais sei, mais duvido.

16. Quando dizem que o conhecimento nasce de uma pergunta, já estamos dizendo aí que, na verdade, conhecer é comunicar.

17. Do que o louco duvida quando escreve? Posso saber o que ele pensa pela linguagem? Por que os escritos de Artaud são menos compreensíveis que Machado de Assis em "O Alienista"?

18. "A literatura comunica o incomunicável" e "A loucura comunica o incomunicável" são duas frases lamentáveis. (São frases que admitem a semiótica, mas negam a possibilidade do signo). Por que a firmar que algo incomunicável pode comunicar algo? Por que não admitir justamente a não-comunicação da loucura?

19. Freud produziu o surrealismo, mas não pensou no surrealismo. Isso quer dizer que "Breton leu a psicanálise pelo seu vazio"?. Mas que vazio? Breton fala a partir daquilo que Freud não admitia. "A psicanálise tinha o surrealismo dentro de si, esperando por Breton". Breton seria então um oportunista do vazio. "E quem não é?". (Não consigo responder a essas perguntas).

20. Entre a filosofia e a ciência, há uma diferença: só à primeira não cabe aceitar as dúvidas. Os cientistas comem dúvidas como americanos obesos comem hamburgueres.

21. "O admirável da arte é que posso interpretá-la da forma como eu quiser, subjetivamente". E o que há de subjetivo nessa ausência de comunicação!? Por que você precisa da arte, se pode interpretá-la como bem entende? Não seria melhor pensar naquilo que você bem entende sem se defrontar com a obra de arte?

21.1 A arte não se justifica pelas interpretações, nem pelo que quer comunicar; a arte é sempre violência contra aquele que pensa. (Ajustar o querer-dizer do escritor com o querer-ler do leitor é fugir de qualquer tipo de estranhamento. E, ao mesmo tempo, a arte caminha cada vez mais ao seu desejo de estranhar-se).

22. "Thompson faz jornalismo subjetivo". E o que isso quer dizer? Que eu poderia ler a mente de Thompson através de suas palavras? E porque posso ler a dele, e não a do louco? Que privilégio existe em fazer jornalismo e literatura? A função de comunicar?

23. "Uma fotografia é mais arbitrária e objetiva que a palavra escrita, porque a imagem impõe o seu sentido, bloqueia a imaginação, enquanto a palavra é aberta para inúmeros sentidos subjetivos". A imagem, sob essa perspectiva, comunicaria a si mesma, enquanto a linguagem comunicaria sua ausência. Desafio-te: imagine uma cor que você nunca viu antes! Só posso formular tal questão porque as palavras arbitram que existem cores desconhecidas. Por outro lado, se você visse tal cor, poderia pensar "nossa, uma cor nunca antes vista! quantas cores que eu não conheço não devem existir nesse mundo!!!".

24. A linguagem funciona entre o vazio de seu significado e a certeza de seu significante. É por isso que o significante e o significado, em si mesmos, nada tem de importante para os problemas da linguagem.

25. "Não penso fora da linguagem" também quer dizer "não deconheço fora do conhecimento".

26. Se minha linguagem é estranha a mim mesmo e, simultaneamente, não penso fora da minha linguagem, resta-nos a questão: como é possível comunicarmo-nos, se não há nada que garanta que o que dizemos vá de encontro ao que queremos dizer?

27. A literatura é o conflito entre o possível e o impossível da linguagem: o desconhecido que conhecemos, e o conhecimento que desconhecemos.

28. A loucura é a consciência deste vazio essencial à linguagem. Daí, também, ela existir tanto em forma de silêncio quanto em forma de morte.

29. Tese de Freud: "O sonho tem uma lógica que não é a lógica de nossa linguagem, mas uma lógica própria". O trabalho do psicanalista seria o de traduzir aquela linguagem para a nossa, aquela lógica para a minha lógica. Mas em que sentido a minha linguagem me é lógica a todo momento? Não posso, às vezes, estranhar-me com o que eu mesmo digo?

30. Se nossa linguagem não nos fosse estranha, que sentido haveria em pensá-la filosoficamente? (Para que Peirce e Saussure?)

31. Transformar nossa linguagem em estranhamento é, também, um produto de nossa linguagem.

31. A força do pensamento anti-filosófico de Wittgenstein é justamente o de neutralizar a dúvida pela afirmação da impossibilidade do conhecer o sentido exato. Mas Caeiro já o tinha feito quando falou do "não-pensar", e da "eterna inocência". (Por que Caeiro é um frustrado, e Wittgenstein é o maior filósofo de nossos tempos, se ambos mataram a filosofia ao admitirem a insuficiência da linguagem?)

3.10.09

Sobre a loucura em seu sentido banal

Lembrei-me hoje de um poema que escrevi há uns dois anos atrás, logo depois que acordei com uma ressaca física e moral. Foi no auge de um tempo em que eu achava que ia pirar, que eu ia acordar no outro dia sem conseguir levantar da cama e ia esperar alguém do manicômio vir me buscar enquanto minha mãe chorava ao fundo abraçada no ombro do meu pai que olhava pra mim com aquele olhar de nojo e reprovação pensando em quanto dinheiro ele ia gastar pra manter o filho esquizofrênico pelo resto da vida preso no hospício como um peso inútil para a vida da família. Eu realmente achei que daquele dia não passava, que se houvesse um limite para a razão dos homens, eu estava exatamente ali, surfando sobre aquela linha tênue. Tudo aquilo porque, um dia antes, fiquei bêbado de cair no chão - e realmente caí, numa poça de lama de cerveja, no meio de umas 4 mil pessoas que batiam seus pés furiosos na terra e dançavam como se fossem elefantes numa arena de rodeio. E, pensando sobre todo esse papo de transgressão, drogas, hippies, Geração Beat, literatura e porraloquice, me dei conta de que, ao contrário de Kerouac e Ginsberg, eu nunca me orgulhei de ter passado por uma situação dessas.

Hoje, relendo aquele poema, vi que eu não queria tombar pro outro lado da lua, que eu nunca me orgulhei daquilo, que eu não achava que cruzar a linha da sanidade poderia fazer minha mente expandir, ou algo que o valha. Aquela vontade incontrolável que eu tive de escrever um longo poema de 3 páginas sobre a loucura foi um canto de horror, de medo, de estranhamento. O mais engraçado é que, enquanto meus amigos me olhavam com nojo naquela posição deplorável , pensando que aquilo tudo não passava de fingimento, de frescura, etc. e etc. (disseram-me, naquele dia, que eu fazia aquilo para chamar a atenção, e que por isso deveriam me deixar sozinho........ como se o louco, preso ao silêncio do manicômio, fosse um espetáculo maior que o palhaço que clama pela atenção do público do circo), um outro amigo nosso era venerado porque tinha se jogado bêbado de cima do palco e quase quebrado o braço num momento de êxtase de alegria. "Meu, cê é louco, cê é pirado!", as pessoas riam em volta dele. Não sei porquê, mas a idéia de transgressão, no senso comum, está muito mais ligada a essa "loucura" risonha, a esse lado cômico da "loucura", do que da experiência trágica de horror e desespero, do já-estar-aí da morte. Não há espaço para a dor em nossos tempos. É mais fácil acreditar na felicidade entorpecida do que nos desesperos incontroláveis. E é por isso que, a meu ver, as sombras que rodeiam a obra e a vida de William Burroughs não tem absolutamente nada a ver com a felicidade colorida dos hippies e da contracultura. E, em certo sentido, creio que eu possa dizer o mesmo de Thompson. Quem lê em Thompson um ícone da contracultura, um palhaço drogado fazendo arroaças divertidas, um irônico que transforma desgraça em riso (porque, afinal, é só o riso que importa), está lendo o lado mais "Mtv" de Thompson. O que me intriga em sua escrita é justamente o avesso disso, a experiência das trevas, da insanidade que o circunda e que o obriga a escrever mesmo que ele não queira, a escrita que é uma maldição.

Existem pessoas que ficam a vida toda em busca do poema perfeito, construindo sua literatura tijolo por tijolo, pensando em cada palavra e em cada som que está dentro do poema, tentando aperfeiçoá-lo cada vez mais para que ele posssa, enfim, transformar-se em um jogo semiótico que, sob a superície árida dos signos, esconde nada mais que os caprichos arquitetônicos de um Arnaldo Antunes. Esses acham que é o escritor quem deve perseguir a literatura, que o poeta é uma espécie de caçador que deve enjaular as palavras e colocá-las no zoológico para que as crianças batam palmas. Mas eu aprendi naquele dia justamente o contrário, que é a literatura que te persegue, não mais que de repente, nos momentos mais estranhos e bizarros da sua vida. Quando acordei com ressaca, não senti vontade de comer, nem de beber água... só senti uma vontade incontrolável de escrever aquele poema, aqueles "7 passos para se produzir uma loucura", que apareceram na tela do computador muito antes de eu pensar em como eles seriam. No momento de desespero, em que você realmente acha que é o último segundo da tua vida, não resta muito tempo para pensar. Hoje, vejo que aquele poema é uma parte do meu lado Burroughs, meu lado Thompson, meu lado trevas que transbordou naquela manhã de domingo. É quando a literatura te força a escrever em vez de você se forçar a fazer literatura. Uma espécie de maldição que acompanha aqueles que, em algum momento da vida, se vêem em cima do frágil muro que separa a loucura da razão e os palhaços dos homens sujos.



E agora, com a tranquilidade que só a monotonia pode proporcionar, eu posso dizer que o único orgulho que tive dessa experiência toda foi o de ter sentido o sincero desespero de quem nunca quis estar ali naquele momento.

23.9.09

as frestas da casa

Sinto falta daquela tua
velha ausência, ainda que
hoje ela seja
a única
coisa que
me reste.

Me sinto pequeno
sobre a imensidão
da minha
cama (tão triste ela
sem o lençol
vazando pelas
beiradas).

Às vezes acordo com saudade
daquela dor nas costas
de sextas-feiras,
de que eu tanto
reclamava.

Quando me cubro para dormir
nos fins de semana,
a tua ausência me raspa
a nuca com unhas
longas - e eu me
arrepio, um frio
na espinha
que vai direto
ao núcleo
da carne.

O vazio preenche
as frestras
de casa, (o vento
gelado passa por ela,
como um intruso).

Ontem coloquei o banquinho
encostado na porta da cozinha
com uma revista por cima
enquanto eu picava
cebolas. Tentei não chorar,
mas as cebolas foderam
com tudo...

16.9.09

Eu me sinto vazio como um
pote de torresmos conservados
na própria gordura, e triste como
o homem que corre
no meio do
canavial enquanto
seu coração
arde em chamas
entre a cinza e o açúcar
do seu passado.

Talvez seja isso mesmo,
o café e o silêncio
como uma
lembrança
incontrolável.

Um vento passou pela minha janela.

Seria o mesmo daquele dia?

14.9.09

Que tolo seria eu
se pedisse ao amor que estivesse
num poema ou numa
música ou num filme ou
numa fotografia
publicada em jornal,
para que todos o vissem fora
de suas próprias vidas; nenhum
artista, enquanto artista, poderá
dizer "eu te amo"
sem estar mentindo.

E é por isso que
talvez esse poema
,essa vontade incontrolável que eu tenho de pensar no amor e descrevê-lo em palavras,
não seja nada mais que
a prova de que
eu não sei amar,
de que eu nunca o soube,
e que talvez eu seja mesmo esse pedaço de carne indiferente
ao mistério das coisas,
esse ser estranho que esqueceu o que é o amor
no mesmo dia em que esqueceu o que é o
sorriso feliz da ignorância
de quem quer escrever
um poema de amor
mas não sabe como.

7.9.09

Sobre as unhas sujas

Estou sentado no velho apartamento
com um prato de
cenouras e beterrabas
na mão, e vejo nelas
a fúria que talvez
nem Tison teve ao
morder aquela
orelha (elas nascem presas
à terra, como os homens).

O alecrim é um tempero imóvel
e madeiroso, como
algumas vidas
comuns; como a vida
de meu pai, do feirante
e do pasteleiro, dos viajantes
de menos de 2 Km, e dos
jardineiros que não
tiram férias (as raízes
daquelas rosas o prendem
ao chão).

Poderia pegar o próximo avião
para a China, e sentar em frente
à muralha, esperando
por um segundo de paz. Mas quão
estúpido eu seria se buscasse
a minha paz em um muro
distante. Poderia
ir a Machu Picchu esperar
que os espíritos de lá
me dissessem o que fazer da vida,
(como se os espíritos daqui
não pudessem fazê-lo)
ou iria à Amazônia
tomar um porre de yage, esperando
a salvação enquanto os mosquitos
me mordem; mas quão estúpido
é sair de casa como
se a vida não estivesse
aqui, e eu, fora dela,
precisasse encontrá-la.

Eu poderia ficar dias sem tomar
banho correndo pelas
estradas da América e tentar
ser o novo Kerouac... mas
que espécie de ser perqueno
seria eu, se precisasse
fugir do mundo
para fazê-lo surgir?

(Quando Cabral viajou em caravelas,
não foi pra encontrar o novo mundo,
mas para levar o mundo velho para terras
que não eram suas).

Minhas unhas me prendem
à terra, e debaixo
delas uma
fúria se esconde: eu não
estou preso ao mundo,
mas é o mundo
que está preso em mim.

31.8.09

Oito dias são oito dias,
nem um segundo a mais
nem um segundo a menos.

A vida é frágil,
às vezes é feita de carne,
às vezes é feita de tempo.

O homem é um bicho selvagem
que escreve poemas
como quem caça papagaios
(eles repetem palavras
sem sentido, como os homens).

Eu tenho em mim uma calma estranha.

Os dias passam, a carne apodrece,
os câes latem e os papagaios
cantam canções
de ninar.

Quando durmo, sou um poeta,
e tenho todos os mistérios
do mundo sob a máscara de
um sonho estranho.

Mas quando acordo,
a vida me morde a jugular
e eu chuto palavras
nela, como se fossem
pedregulhos.

19.8.09

Olhando, olhando,
de olhos abertos,
o surto de medo,
a epistemologia:

o mundo me
engoliu com suas
sombras: conhecer
é esquecer
o mundo.

Da luz, fica o ócio: cantemos
como tolos, e de nossos
filhos molhados de barro
criemos escravos.

8.8.09

Morram, indies!

As coisas são belas não porque possuem alguma coisa que as tornem especiais. As coisas são belas porque existem. Da dor mais visceral ao prazer mais sublime, as coisas são belas porque existem, porque são fruto de um acaso que as tornam únicas. Frente a todas as possibilidades do mundo, aquela música do Michael Jackson possui justamente aquele ritmo, nem mais rápido, nem mais lento, e também aquela história de Kafka, em que o homem é um inseto, em que o inseto somos nós, cada palavra esta ali e nada pode mudar isso, nada pode mudar o futuro de Gregor Samsa. As coisas são belas porque existem, porque aconteceram, e o filme do Adam Sandler não é uma exceção. Não olho para um quadro e me pergunto que sopro de genialidade pode ter dado origem a uma determinada música ou quadro ou livro ou notícia de jornal... eu simplesmente olho com olhos atentos, ouço com ouvidos de raposa, percebo que no mundo há muitas coisas, mas que cada coisa é ela só, ela mesma, que é rara em sua maneira de ser redundante. Adam Sandler não é um gênio, mas faz coisas que existem. Isso é suficiente para chorar em "Click" e sua história nietzschiana. Não é Nietzsche que a torna bela. Ela é bela porque existe. Por isso me sinto feliz ao olhar ao redor do mundo e ver as coisas simples, por isso aproveito-as uma a uma, por isso sinto o cheiro do orégano e do tomilho e sei que só eles possuem aquele cheiro, ainda que possuam a mesma cor. O tomilho é belo, sem ser genial; a vida é bela, sem ser obra de arte.

2.8.09

O mundo todo é uma caixa.

O mundo todo é uma caixa;

Não há nesse mundo quadrado filósofo ou professor engomadinho que me convensa de que o mundo é uma caixa com oito pontas afiadas e o peso de mil sóis e o gelo de doze mil plutões sob o peso da ausência dos ventos.

Quando um dia te disserem que os planetas mudaram de nome, e que os sóis eram azuis e que a vida era azul e que nas nuvez haviam desenhos, saia correndo, como quem corre de plantas carnívoras, e morda seu próprio braço, coloqueo para assar em alumínio e refoque seus dentes com cebolas para fazer um molho de sangue e corpo sem cristo. Bata tudo no liquidificador e acorde de manhã com os olhos vermelhos e diga para o espelho: por que tem uma unha no meu olho?

18.7.09

Quando fugir é necessário

Às quatro da madrugada estou sentado frente a uma folha de papel em branco chamada "computador" que me olha e não reconhece meus limites. Ela quer que eu escreva, e escreva, e diga aquelas coisas todas que dentro de mim se encontram esquecidas e querem morrer, como o corpo e a vida dos homens. Eu digo, e digo, e contorno a situação com um sonho estranho - hoje havia uma mesa coberta de massas com ervas finas, e eu pensei (por dentro, pois no sonho há muitas vozes, não só a dos outros, mas também a sua): por que raios não largo tudo isso de epistemologia homossexual e me dedico à arte de criar alimentos que se aproximem da arte. E vejo que com uma faca e uma cenoura na mão, às vezes, sou mais feliz do que com todos os livros do mundo, e penso que talvez felicidade não seja suficiente para ter uma vida completa. Talvez seja preciso mais, seja preciso sofrer, seja preciso levar uma facada pelas costas, seja preciso trair as pessoas, trair os amigos, trair a si mesmo, dizer "saia, saiam, voem", dirigir-se ao mundo das sombras carregando um pão com queijo, um pão na chapa, um pão com vozes, e dele extrair um poema de dor, um poema de sofrimento. Talvez seja preciso tudo isso para se sentir realmente pleno, sentir-se bem, ainda que não feliz. Felicidade é uma grande besteira! Quem a quer, esquece de viver. A vida é sofrer, a vida é correr todo dia de manhã pela rua e aturar os farpos de madeira que te penetram o dedão do pé, os dentes podres que empurram tua gengiva para o inferno, a boca do dragão a sussurrar em teu ouvido. É preciso morrer para dar valor à vida; é preciso perder; é preciso, é preciso; é preciso.

Dormir acordado é estar feliz, é estar feliz, é olhar para o céu e ver a felicidade, é esperar que a morte não venha, é correr das sombras quando elas surgirem às 7 da tarde, é olhar para o seu pai bêbado e sentir vontade de pular das pontes, é nadar em sentido ao centro da terra, é uma guerra, é o amor que te faz sangrar o nariz e te usurpar o muco.

Quero correr, quero fugir não da vida, mas da felicidade, quero ir de encontro à fuga, não fugir do mundo, mas fazê-lo fugir, como se estoura um cano, como se estoura uma veia, como se faz saltar o sangue dos olhos, como se tua visão estourasse os limites do horizonte - como se o horizonte te custasse o esforço de teu sangue a estourar os vasos - a estourar os canos - a estourar-se: morrer um pouco.

Amigos, tive muitos, e todos morreram, nenhum me sobrou. A vida os levou - a morte os levou - a felicidade os levou. A todos, deixo apenas um pedido de desculpas, por não tê-los suportado, por não ter-lhes dado mais amor, por não me importar com eles o tanto que eles se importaram comigo (e que amigo realmente se importa com o outro!?). Eu quero aqui me desculpar, dizer que tudo aquilo foi em vão, que anos e anos se passam e nada mais fica que a certeza de que era preciso morrer, era preciso deixar fugir as pessoas, fugir das pessoas, fazê-los andar sobre passos estranhos, mundos estranhos, mundo onde não mais o amigo está, mundo onde não mais estou, mundo estranho - já não o mesmo mundo, já não o mesmo sabor de pastel em frente à minha casa, já não o mesmo sabor do álcool que ela saboreou naquela noite, não mais o calor do teu pau a penetrando, não mais o olho do teu novo namorado com o mesmo impulso, não mais a vida, não mais a mesma vida, a vida toda mudou. Ela não é real, não posso fazê-la real, não posso fazê-la real, não posso fazê-la andar, não posso fazê-la esperar e sangrar, não posso esperar. A morte está por toda a parte. Fico feliz que você tenha partido, fico feliz... eu sei que você não precisava de mim. Estar ausente é o meu melhor presente que dou a você, agora.

14.7.09

O gato e a fera

Olho o gato e digo: "fera"
e ele corre inocentemente
em busca de um novelo de
lã.

Olho a lã e digo: "fera"
e nela vejo garras
e veias saltadas
em seu pescoço
de fúria ágil.

Olho para meu gato e digo: "lã"
e ele corre em círculos
em volta do sofá
e briga com o novelo
como se fosse
seu irmão
mais velho.

Eu olho e vejo
e dou nomes estranhos
às coisas, para que
as coisas sejam
gáticas e os
novelos sejam lã
a desenrolar-se.

O gato e a pedra

Olho uma pedra e digo: "pedra"
e as coisas
estão todas
em seus
lugares.

Olho uma pedra e digo: "pedra"
e as coisas
não vazam nem
escorrem como
o nariz das crianças
que tropeçam
e choram.

Olho uma pedra e digo: "pedra"
e espero dela que ela
seja uma pedra e seja dura e não
mude e permaneça uma pedra
para que eu a aponte e diga
"pedra" e veja sempre uma pedra.

Mas ontem o gato viu a pedra
e disse "miau"
e o mundo todo
já não era mais
o mesmo.

8.7.09

o leite do cio, o cio da pedra

Sete dedos brotaram
da terra, e de sua
pose inspiradora
apontaram para os
sete homens
que não
tiveram a chance
de falar; esses
salvarão
a Terra, de seu silêncio
,de sua
luz, de sua
morte haverá
vida e de nossos sonhos não
mais que
nossas
prisões.

O mundo
não é brincadeira;
o mundo é fogo
é terra
é a transpiração
do vapor sobre
nosso sangue; é atmosfera
é termostato é
dor é cio é
desejo é vida é
morte é morte em vida
é círculo é pedra
é traço é palavra
é rocha é chaga
é chaga de rocha é
pedra é ferro é metal
borbulhando é pétala
de fogo é lágrima
sobre a fogueira
é o verão ardendo
é o inverno é o gelo
em chamas é a terra ardendo
é magma é luta
é morte é gruta escura
de onde a palavra
brota (é vida, é dor,
é peça de xadrez sob
as mãos de Deus, é o homem
com as peças na mão
é você sobre suas próprias
peças, rei de si senhor
da tua vida, degladiando-se na
arena dos teus pensamentos
é tristeza que brota é) amor,
é o ódio que te alimenta
e é a respiração
felina inundada
de sangue.

Uma lágrima
sobre o fogo,
o fogo sobre a terra
a terra sob o ar
o ar sob a montanha
a pressão dos dias
como quem aperta a ferida
e dela não deixa
esvair-se glóbulos
(ólhos, ólhos, ólhos)

A vida é o punho pesado de Odair José gritando da sacada de meu apartamento
"Mas que loucura,
a gente
tem que viver!".

5.7.09

Profecia

O tempo está pesado.

Eu não estou pronto para o que está por vir.

Dos céus descerá um
Deus-muco que
nos grudará
à sua graça e da luz
espacial das estrelas
escondidas sob
as têtas das vacas, os testículos
do sapo, o saco, a boca
dos outros; do chão
se erguerão senhores
de terno e gravata
e eles comandarão a vida
de todos os pequenos
homens que não
sabem correr
sem rodas e máquinas que os engolem
e os atropelam e os matam
e os libertam dos
próprios pés - máquinas
que nos libertam
de nossos próprios - nossos próprios -
pés, pés, pés... por
onde andaremos nós,
nesse dia,
em que os violinos tocarem canções
distorcidas e dos campos
em chamas sairão insetos
,como os insetos do nosso nariz,
como os insetos no nosso intestino,
como a força, como o sangue
que escorre de nossos
sanduíches, como as crianças
que escorrem de nossos dentes,
sobre os dentes, como os dentes,
como as palavras que nos
dizem e nos
dizem e Alá! Haverá,
Alá mohamed'ali quimaricaturerapia,
os médicos serão padres
e os shamans serão guerreiros de onde
a dor brotará para salvar-nos
- e nossas mitologias não
serão mais as mesmas e nossos
dias não serão mais aguádos
e nossa chuva não será mais ácida
e nossos filhos não
serão mais pequenos e indefesos e nossa
mãe nos abandonará a correr pelos
lagos - e morreremos
afogados, e morreremos
afogados e poucos
serão escolhidos...

ele vem de helicóptero, e com
nove braços e uma
cabeça de inseto-rei
ele nos levará para
uma caverna
de onde nunca mais sairemos
e de onde nunca mais quereremos sair
e nunca mais pensaremos
em outra coisa a não ser
na própria felicidade, porque
não teremos mais dor, e esse será
o fim da vida, o fim do mundo,
o fim dos tempos - o sonho
psiquiátrico, o sonho dos homens
sem cor, os sonho nazista, o sonho
socialista o sonho cristão o sonho
dos homens dos homens sem sonhos
os violinos e os gatos
os sons estranhos
o miado da noite iluminado
por aqueles que se esqueceram
de viver e amar a vida
como quem ama aquilo que
perde e aceita a morte
como os insetos
aceitam suas pequenas
asas

(uma brotoeja nascerá do Escolhido
e as moscas o transformarão
em Deus-medusa e Deusa-varejeira:
e quem não o
seguir será castigado
com a plena felicidade de nunca
sentir o cheiro
de sua carne
apodrecer)

3.7.09

?De quantas sombras
não é
feito um homem
e seus olhos
e corações
de vórtex sobre
as palpitações?

?De quantas sombras somos
envolvidos
ao olhar para a janela
e nela ver
flores na sacada
vizinha, no apartamento
onde eu costumava espiar
a sombra daquela
garota
de olhos estranhos?

?Quanta escuridão
há em nós
quando penetramos a mulher
que amamos
e a mulher
que não amamos
e as unhas
penetram na carne
e a fazem
amarelar e enegrecer
e caírem no chão como
a lágrima que
escorre pela
língua de um
cachorro sufocado pelas
coleiras
de sua dona?

Ouça, e ouça
bem, porque só vou
falar isso uma vez, e eu não
me repito para mais
ninguém, entendeu, eu
coloco minha arma dentro
de meu coração e atiro
para fora e posso estourar
seus miolos com uma
só palavra e te mando
calar a boca mesmo
que você seja um juiz e eu
tenha que lhe pagar uma multa,
eu estou te avisando
seu filho da puta convencido
que se acha o dono do mundo
que eu tenho uma coleção
de boas armas em casa e posso
me expressar o quanto quiser
e você não é que pensa que
é seu pedaço de estrume com uma curva
no canto dos olhos negros e amarelos
como o fígado pobre
de teus filhos que você
alimenta com o sangue que espreme do
coração dos infames e do sorriso
sofrido de uma
velha aposentada! Eu te mato
com uma só palavra
e você verá só!

por quantas
trevas mais - e as palavras
se empremem no canto
da boca e me sorriem com um
desespero! meus dentes caíram, e tudo
vai começar novamente! ESPERO
ainda que você veja e eu estou
dizendo, eu lhe mato, eu lhe mato
não coma minha filha numa
mesa de jantar com velas
e sacrifícios porque eu
sei que você não
quer me proteger, você só
quer que eu foda a minha vida, eu mesmo,
e diga que sou culpado
de nascer e viver e sorrir
e foder a sua mãe! ah, como
é bom vê-la gozar dentro
da minha orelha (o gemido,
a dor que é tão boa, a dor que
é tão boa, a dor que
não se pode negar!)
queria ver
você sobre todas
as trevas do corpo dos
homens pra ver se
aguentava o que eu
aguento todo dia,
je suis allé
baque trois, enfants
los chicos e
las crianças te vão
dentro, dentro
amanhã, por demanhã
de manhã, como um
dia sem nuvens, sem sol, quando
o sol se apagar, eu e meu
rifle te mostraremos
que as trevas estão aqui,
no meu coração,
sufocada, sufocada,
por vocês
que sequer sabem
que são
as trevas
que te movem, e
te fazem escrever como
um maluco e colar em cartulina
os teus mais insanos
problemas que são inumanos


ninguém está
pronto para o que está por
vir, é um vírus,
é o que dizem: esteja preparado
para qualquer coisa, as pessoas
querem te atirar pela merda da janela
e eu vou te dizer, pronto
como nunca posso estar,
it's a litle saying
não aceite nenhuma
merda e sempre
esteja sobre o seu chão.

há um vírus que
se espalha sobre nossa
vida, e a diarréia
da vida, pelo ralo,
a vida pelo ralo, você
a deixou escapar, sorrindo
superficialmente, o sorriso
hipócrita, e toda vez que você acha que está seguro,
está tudo em sua mente,
está tudo em sua mente, e só na sua mente, os
ratos na cela,
você sabe quem são? tudo na sua
cabeça, tudo na sua
mente, e você
tenta!? E VOCÊ TENTA
LIBERÁ-LO!?!?!?

23.6.09

Não me reprovem na banca de mestrado

Eu vejo os homens e seus
desejos de liberdade
como quem olha
os leões
enjaulados e se
pergunta pra quê
que há tanta
juba?

Vejo os poetas
e seus
dias perturbados
em que as
estranhas pessoas
morrem e passam
pela rua carregadas por
fúnebres passantes
(nas costas da vida,
o mundo por sobre
um caixão
aos domingos! Adeus,
vovô, não se despeça
antes de
se despedir da
empregada
que bulinaste!)
e não há
muito do que lembrar,
dos poetas.

As noites escorregam,
o sopro do cigarro
faz desenhos, como
as nuvens fazem
desenhos, como
os pássaros desenham
nas nuvens
sua passagem que não
alcança o longe-longe
do céu. Está
escuro. Onde estou
eu, em pleno sol
do meio dia, preso
sob o teto que chamo
de lar e com o conforto estranho
dos homens livres
(como os porquinhos
fujindo do lobo
mau, que come
a chapéuzinho e no fim
todo conto de fadas
é uma grande
prova de que o imaginário é
nosso mais pesado grilhão).

Por sorte os homens
precisam comer rosquinhas,
dirigir carros, fazer
sexo, ouvir música - fazer músiva - ler
poemas, contar histórias
deixar-se contar na
boca dos outros,
fofocar, ouvir sussuros, botar
o ouvido na parede para ouvir
o gozo dos morcegos
sob as telhas
entre a laje e as estrelas
de que fogem (eles voam, mas
se escondem em cavernas,
como os homens); se não fosse
por esse monte
de inutilidades, acho que viveríamos
de dor alguma e estaríamos
condenados a fazer
literatura só com palavras,
sem matéria prima - sem
matéria prima (sem matéria
prima).

Eu vejo os poetas
como quem vê libertinos fodendo
com a própria vida; eu vejo
meus olhos como quem se
olha no espelho (só no
espelho, meus olhos)
e sei que o poeta
é um ser desprezível, um
ser desprezível, que não
sabe o que
faz da vida
(e que se soubesse, que sentido
haveria!?).

Libertar-se é a
arte de construir
prisões.

(sob os passos de quem ouve,
sob os passos de quem ouve,
sob os passos, toc toc,
aloha, mama mama, nada
manda a falta
de plllllllllllll111111
psiu, psiu, alô,
roça, parede, moinho de vento
cavalo, dom quixote
eu não te vejo
sem BRU BRU,
quem sussurra!?)

9.6.09

Sobre chatos (os insetos das partes baixas)

Sobre ser diferente, eu sempre quis ser diferente. Na verdade, não sei o que incomoda tanto as pessoas que não gostam das pessoas diferentes. Eu sempre fui meio estranho, e sempre achei isso normal. Hoje em dia as coisas andam todas ao avesso. Meus pés flutuaram de onde um dia eles achavam estar fincados. As coisas comuns aparecem todo o dia, estranhas e compactas. Meu sonho era comprar bolinhos azuis com churros no meio do doce de leite. Coisa estranha, a sintaxe dos alimentos fritos. Doces, docinhos, bem mais doces que as beringelas. Queria saber quem foi o filho da puta que inventou as beringelas. São como esponjas, esponjas negras e densas que chupam todo o óleo do mundo, ainda mais quando você as faz a parmegiana. Parmegiana. Era pra ser com parmesão, não? Mas o que eles fazem no Brasil, o que? Me digam, o que? Fazem um muzzareliana, e se acham os fodões. Meu, você nunca vai comer um verdadeiro filé a parmegiana no Brasil. O queijo que você compra é lixo. É tipo um pedaço da ponta da unha do fedor do ítalo-brasileiro que está ganhando rios de dinheiro com o tráfico de adolescentes sexualmente ativas. O quejo que vocês comem é a frieira do olho de peixe do pé de um capanga mal pago da máfia. Nunca vocês comerão o Godfather dos queijos. Há todo um processo oculto que vocês nunca vão saber qual é, mas pelo qual vocês pagam rios e rios de dinheiro. E depois de muito trabalho pra transformar um punhado de leite fino e ralo num denso pedaço de queijo parmesão original, você rala aquela porra e coloca na macarronada Galo com molho pronto Maggi. ONDE ESSE MUNDO VAI PARAR!? Eu tenho um amigo vegetariano que come soja texturizada para não comer carne, e pra piorar a situação ele frita a dita cuja numa panela cheia de óleo de soja. Me diga, por que não comer um boi besta que não faz nada além de mascar pasto pra depois se entupir de um produto industrializado da porra que passou por infinitos processos de dissecação e lavagem para chegar ao teu prato coberto do óleo que deveria estar no legume in natura!?!?!?!?!?! Vocês pagam pra retirar o óleo da soja, depois pagam pra retirar a proteína da soja, depois vocês colocam tudo na mesma panela e comem felizes da vida pensando "que bom, um boizinho não morreu!". Cara, você é ridículo! Você deveria comer rúcula. É, rúcula. Rúcula é bom. Faz bem pros dentes. E espinafre, faz bem pro sangue. Tem ferro. Pelo menos, você não pega o espinafre e o faz passar por um milhão de processos industriais para retirar-lhe e desfigurar-lhe os sentidos antes de mordê-lo. E tem gente que chora por conta de boizinhos... tem gente que chora. Como!?!? Como!?!?!?!? Por que botar a culpa das dores do mundo no meu almoço?, ein?, por que no meu pobre bife a parmegiana com mussarela!?!? Eu só quero estar em paz, só quero ficar em casa vendo tevê sem que você me diga o que devo ou não fazer. Não fui eu que desmatei a amazônia, não fui eu que fiz os negros se tornarem escravos, não fui eu que mateis judeus no holocausto, não fui eu quem elegeu o Bush, não fui eu que matei as baleias, não fui eu que inventei a roda, não fui eu que criei o telejornal, não fui eu quem pariu cinco gatinhos na rua... então não me faça perder o pouco de prazer que tenho ao morder um cadáver bovino aos domingos com a minha família de canibais jurássicos!

Entendeu!?

Eu quero curtir minha alienação, com batata frita e refrigerante. Prefiro ser um porco escroto chupando sangue com canudinho a ser um piolho de testítculos hipócrita.